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A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes, Bélgica/Itália/França, 2011) se passa numa aldeia islâmica do norte da África, onde as mulheres têm de buscar água montanha acima num trajeto perigoso e que normalmente lhes causa acidentes — e muitas delas, grávidas, acabam perdendo os filhos. É quando um novo evento desses acontece que algumas delas decidem se reunir e fazer uma greve de sexo enquanto os maridos não tomarem providência quanto à questão do abastecimento da região. Numa cultura machista e conservadora, essa manifestação encontra relutância mesmo dentro do gênero; por outro lado, alguns rapazes mais liberais acabam aderindo a causa. É quando largam o trabalho pesado e começam a refletir sobre sua condição, no entanto, que as mulheres então percebem o quanto seu movimento pode se expandir — ideologicamente e, mais tarde, fisicamente. O tema é sério, mas o diretor romeno Radu Mihaileanu não tende a uma abordagem absolutamente dramática. Nessa guerra de sexos, consegue inserir humor de forma equilibrada e prazerosa. Entre as melhores cenas, estão aquelas em que o grupo militante canta as asperezas de seu ofício ao mesmo tempo em tom de denúncia e provocação, inicialmente numa apresentação para turistas e depois num evento cultural das redondezas; e outra em que as mulheres confrontam o líder religioso do lugar com novas interpretações do Alcorão. Às vezes o filme tropeça no implausível ou em cenas simplesmente desnecessárias, de um humor bobo e raso que destoa da harmonia da produção. Mas, em tempo de rebeliões recentes na sociedade árabe, é uma obra que carrega ainda mais importância.


Já O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida (Dr. Seuss' The Lorax, Estados Unidos, 2012) não sustenta sua mensagem assim tão satisfatoriamente. Baseado no personagem criado pelo famoso artista norte-americano Theodor Seuss Geisel (que adotou o pseudônimo de Dr. Seuss para a maioria de suas obras), o filme dos estúdios Illumination Entertainment (braço da Universal que realizou Meu Malvado Favorito e Hop: Rebeldes sem Páscoa) procura sempre deixar bem clara sua postura ecológica: numa cidade isolada de um exterior de natureza depredada, as pessoas vivem num ecossistema artificial, em que árvores são de plástico e o ar mais puro é vendido em garrafas. Um garoto, impelido pela vontade de conquistar uma colega, vai atrás de arranjar uma árvore para ela — e acaba descobrindo a história que levou à atual disposição das coisas, um passado de exploração egoísta e desmedida dos recursos naturais da região. Que esse seja um assunto bastante pertinente a que as crianças já cedo tenham contato — afinal muitas delas não vivem tão distante de algo como Thneedville, a cidade do filme — não justifica a narrativa bagunçada que aqui se apresenta. Indo e voltando no tempo enquanto mostra o desenvolvimento de diversos personagens, O Lorax não parece exatamente ter um foco, à parte da discussão política que vem já do texto de Dr. Seuss. Quando já se tem uma obra-prima como Wall-E entre as animações que introduziram esse tipo de assunto aos mais jovens, não há como ver maiores méritos em produções descuidadas como essa — a não ser na excelente coletânea de canções originais e no conceito visual colorido e criativo (mas, em comparação, ainda inferior ao que se viu no simpático Horton e o Mundo dos Quem!, também baseado num livro do mesmo autor).

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Fúria de Titãs 2 (Wrath of the Titans, Estados Unidos, 2012) se mostra como uma boa continuação ao primeiro capítulo, de dois anos antes, que era tão anêmico quanto o original da década de oitenta. Aqui a mitologia parece mesmo vibrar, ao contrário de seus predecessores e de incursões recentes nesse terreno, como o carnavalesco Imortais, de Tarsem Singh. Confirmando o que algumas especulações já apontavam, o filme tem vários elementos que remetem à premiada série de video game God of War, e estabelece uma ambientação (visual, mais que narrativa) muito mais densa que a do anterior. Com algumas sequências de ação realmente impressionantes e efeitos visuais que nunca o rebaixam ao constrangimento (pelo contrário, até dão mais credibilidade aos truques em 3D), até é de surpreender que Titãs 2 seja do mesmo diretor do insuportável e incompreensível Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles. Mas, no que Hollywood parece sempre querer lembrar em blockbusters do tipo, o resultado está longe da perfeição: a trama é frouxa e não poucas vezes repleta de momentos clichês e cafonas, dos que fazem o espectador querer abandonar a sala de vergonha.


O Pacto (Seeking Justice, Estados Unidos, 2011), novo filme a que Nicolas Cage empresta seu talento (sem ironias aqui: o ator é excelente, mas participa de muita coisa que não explora seu potencial), vai ficando cada vez mais absurdo conforme se aproxima do clímax. Pouco pode ser dito da história — que é relativamente previsível —, senão que havia ali uma ideia que, nas mãos de roteiristas sensatos, poderia se transformar num thriller envolvente. Há um bom clima de tensão e conspiração, mas dispersado com cenas que, quando não no limite do impressionante com o inverossímil, apenas transmitem incredulidade (ou um professor de literatura conseguiria fazer tudo aquilo? Questão é que O Pacto não tem a estrutura bem estabelecida como a de 72 Horas, com o qual compartilha semelhanças, e que conseguia justificar as ações de seu protagonista com mais naturalidade). Enfim, é mais um trabalho medíocre dentro do gênero — e na carreira de Cage.

O Cinema das boas intenções O Cinema das boas intenções Reviewed by Mateus Denardin on 14:00:00 Rating: 5