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Antes de tudo, é atípico que Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, Estados Unidos, 2014), vindo agora do final da temporada de blockbusters do verão norte-americano, com grande orçamento e um renomado estúdio por trás, não seja uma continuação.


É animador, aquela sensação de que se verá algo novo, e até libertador, não precisar revisitar franquias para se lembrar de tramas e personagens prévios. Este é um ponto já ganho quando se vê que a Marvel não apenas criou um "filme de origens" competente, como fez dele um de seus trabalhos mais envolventes e sensíveis - senão o primeiro nesse segundo aspecto.

Compartilhando quase nada com o universo dos nove trabalhos anteriores do estúdio (embora se espere um cruzamento futuro com os Vingadores), Guardiões já dedica o prólogo à apresentação do líder do grupo, Peter Quill, num momento dramático raro na filmografia da Marvel. Os demais protagonistas vêm a seguir: Gamora, Groot, Rocket e Drax. Tão diferentes, mas tão parecidos: conforme vão revelando detalhes de sua história, descobre-se que todos têm passados trágicos ou mal resolvidos, intenções que se cruzam.

Que a trama seja das mais simples (todo mundo está atrás de um objeto poderoso, e os heróis precisam evitar que os vilões o obtenham antes) apenas favorece o desenvolvimento das relações entre aqueles indivíduos, coisa que os cineastas fazem em meio a dezenas de piadas, repetições, lutas e sequências de ação. Nem tudo funciona como pretendido, mas isso é até esperado num filme com abordagem tão irreverente e que tenta criar humor a todo momento.

Essa irreverência ultrapassa tudo que a Marvel já tentou nesse sentido, com melhores (Homem de Ferro, Os Vingadores) ou piores (Thor: O Mundo Sombrio) resultados. Aqui se tem uma entrega total à extravagância: não só em como os personagens interagem entre si e com relação à história, mas também na representação visual rebuscada e colorida de cenários, figurinos e criaturas. Canções famosas dos anos 70, escolhidas a dedo pelo diretor, reforçam essa leveza e despreocupação - algo que já é antecipado no início da projeção, quando o título do filme explode na tela com Peter Quill dançando ao som de "Come and Get Your Love".

Seria inusitado, então, que desse tom que brinca inclusive com a sátira (os heróis vindo em câmera lenta em direção à tela; o momento em que se reúnem em pé), saísse uma obra tão bem arranjada em termos dramáticos, mas é exatamente o que ocorre. Ao final, o espectador já foi conquistado por aqueles personagens e é capaz de se emocionar com eles - e há pelo menos duas cenas lindas que ocorrem em sequência perto do desfecho.

Guardiões da Galáxia era tido como aposta arriscada, mas vem surpreendendo nas bilheterias e sendo acolhido por crítica e público, um sucesso que talvez molde não só suas continuações, mas também os projetos futuros do estúdio. Quem mais comemora deve ser a Disney, que, além da Marvel, é dona da Lucasfilm e da Pixar, e dominará as arrecadações com seus lançamentos nos próximos anos. Se a qualidade se mantiver assim, o público estará comemorando junto.


Guardiões da Galáxia | Crítica Guardiões da Galáxia | Crítica Reviewed by Mateus Denardin on 13:30:00 Rating: 5