Na contemporaneidade, imersa em uma cultura que exalta a superficialidade e promove o egocentrismo, negligenciamos aspectos sublimes que se perdem quando nos fechamos em nossos próprios universos. A sensibilidade à ternura parece ter se dissolvido, e as relações transformam-se, por vezes, em uma transação ausente de generosidade e desprovida de genuinidade.

Neste contexto, surge Leonardo (Adam Sandler) , um lagarto que mora em um aquário numa sala de aula na Flórida há décadas. Indaga sobre sua existência e se já experimentou plenamente tudo o que a vida tinha a oferecer. Oportunamente, a nova professora da classe propõe uma atividade singular: os alunos podem levar animais para casa nos finais de semana.

Leonardo, aos 74 anos de uma vida rica de observação do comportamento humano, encontra um novo propósito ao se envolver com cada criança, proferindo com sabedoria: "As crianças podem se beneficiar de meus insights antes que eu bata as botas". Em sua jornada, ele revela às novas gerações uma perspectiva valiosa, preenchendo seus dias com significado e transcendendo as barreiras do tempo.

As crianças de hoje enfrentam desafios próprios de suas famílias e vidas modernas. Surpreendentemente, Leonardo, como um bom observador e ouvinte, consegue discernir padrões humanos com notável perspicácia.



No seu primeiro fim de semana fora com a menininha verborrágica da turma, ele conjectura que o fato de ela ser a primeira filha e a ausência de limites parentais pode ser a raiz desse comportamento. Diante disso, sugere uma abordagem mais proveitosa, propondo que, em vez de inundar as pessoas com palavras, seria prudente para ela cultivar um interesse genuíno pelos outros e também ouvi-los falar. 

A introdução de perguntas autênticas, sugere Leonardo, transforma o diálogo em um jogo de pingue-pongue fluído, afastando-se da monotonia de um monólogo unilateral.


Nos recantos pouco explorados da superproteção parental, da tristeza, do luto, do bullying e da vaidade, Leonardo está sempre pronto para propor uma nova perspectiva libertadora. Ele sugere que a jovem popular e superficial pode encontrar liberdade ao perceber que ela “não é tudo isso”. 

A mocinha carente pode se apropriar de seu impulso interior e assim descobrir sua potência. Leonardo também mostra ao menino preocupado com a puberdade que a singularidade de ser pode ser não apenas aceita, mas também celebrada, abrindo caminho para um acolhimento mais profundo de si mesmo.


E então, quando foi que nos esquecemos do que realmente importa nas nossas relações? Talvez quando nós mesmos já nos esquecemos há muito tempo do que é olhar a vida com olhos de ternura. O olhar terno é um que olha com amor as questões e dificuldades do outro, e isso dá espaço para ir além do rechaço e da busca incessante pela aparência ao invés da essência.

Será necessário que constantemente nos recordem disso apenas por meio de filmes de animação infantis?