‘Amor no Escritório’, uma comédia corporativa com ares de novela

Netflix apresenta romance, meritocracia e disputa pelo poder


Criada por Carolina Rivera, também responsável por sucessos como ‘Mãe Só Tem Duas’ e ‘O Babá’, ‘Amor no Escritório’ (Amor de Oficina, 2026, Netflix) aposta em uma narrativa já bastante conhecida, mas apresentada com uma nova roupagem. Ambientada no México, a série dialoga diretamente com clássicos como ‘Betty, a Feia’ ou, mais especificamente, ‘A Feia Mais Bela’, mas se diferencia ao deixar de lado a discussão estética sobre o que é bonito ou feio para colocar no centro do debate a meritocracia, um conceito amplamente aplicado (e questionado) no universo corporativo contemporâneo.

A trama acompanha Graciela (Ana Gonzalez Bello), uma profissional dedicada, que construiu sua carreira ao longo de anos dentro da Sofintim, uma empresa de lingeries. Convencida de que finalmente será promovida ao cargo de CEO, ela comemora com os colegas de trabalho em uma noite, que acaba rendendo um envolvimento inesperado com um homem que conhece ali, sem saber exatamente quem ele é ou o impacto que esse encontro terá em sua vida. 


No dia seguinte, a surpresa: o desconhecido é Mateo (Diego Klein), justamente o filho do dono da empresa e seu principal rival na disputa pelo cargo máximo da companhia. A partir daí, o que começa como uma guerra profissional rapidamente se transforma em um desafio pessoal, com tensões que misturam ambição e atração. Na corrida pelo posto que ambos acreditam merecer, uma pela competência e o outro pelo laço familiar, Graciela e Mateo passam a perceber que aquele visto como o maior obstáculo talvez seja, também, a resposta para tudo o que procuram.

Com tom leve e bem-humorado, ‘Amor no Escritório’ funciona especialmente bem graças ao elenco de apoio, que oferece o alívio cômico necessário tanto para os protagonistas quanto para os “vilões” da história. O espaço da cozinha do escritório se destaca como palco de interações divertidas e comentários ácidos sobre a rotina corporativa. Entre os coadjuvantes, Gutiérrez (Manuel Calderón) acaba conquistando certo protagonismo, especialmente em sua relação com Larissa (Paola Fernández), que rende algumas das situações mais divertidas da série.


A série também traz um casal aquileano, Victor (Nicolás de Llaca) e Lalo (Fernando Memije) que não escondem em nenhum momento a relação e demonstração afetiva durante o enredo, dentro e fora do escritório. Além disso, após uma festa da empresa, eles se surpreendem com Bobby (Marco León), que entra como um terceiro participante na relação.

Embora traga uma estrutura típica de séries de TV ou sitcoms, a produção assume uma narrativa bastante próxima da novela, algo perceptível nos ganchos constantes, nas tramas paralelas dos personagens secundários e nas histórias familiares, desenvolvidas gradualmente ao longo dos episódios. Algumas dessas linhas narrativas até poderiam ter recebido um aprofundamento maior, como a relação de Graciela com sua mãe e sua filha, mas ainda assim cumprem seu papel dentro do conjunto. 


O final da temporada aposta no clássico suspense: quem será o novo CEO da Sofintim? O gancho é propositalmente semiaberto. Caso a série seja renovada, o que parece provável, há material suficiente para expandir os conflitos. Se não, ao menos um dos personagens sai como vencedor claro da disputa.

Outro ponto curioso é como a narrativa ecoa tendências populares da literatura contemporânea, especialmente os romances de grande sucesso publicados via Kindle Direct Publishing (KDP), da Amazon. As temáticas de “paixão pelo CEO”, “filho do chefe” ou “eu, minha filha e o CEO” reforçam que esse tipo de fantasia corporativa-romântica segue encontrando grande apelo junto ao público.

Além disso, a ambientação em uma empresa de lingeries remete, de forma bastante evidente, a uma referência brasileira: a novela ‘Dona de Mim’, da TV Globo, criada por Rosane Svartman. Assim como em ‘Amor no Escritório’, a trama brasileira acompanha disputas internas pelo poder dentro de uma empresa familiar, envolvendo irmãos de gerações diferentes e conflitos sobre quem deve comandar os rumos do negócio. Inclusive, a premissa da série da Netflix facilmente renderia um spin-off dentro do universo de ‘Dona de Mim’, especialmente no novo projeto da Globo de novelas verticais, as Novelinhas. Nesse cenário, apostar em Davi (Rafael Vitti), o alívio cômico da família, poderia ser uma escolha bastante acertada.

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