'Heated Rivalry': o romance entre rivais do hóquei que dominou o entretenimento

E a série resgatou um pouco do espírito de 'Skins'

‘Heated Rivalry’ é uma série original do canal canadense Crave, com lançamento em 13 de fevereiro no Brasil pelo HBO Max. A produção é inspirada na série de livros ‘Game Changers’, escrita por Rachel Reid, que também ganha lançamento no Brasil a partir de fevereiro pela Editora Alt, selo jovem da Globo Livros. Por se tratar de uma coleção de livros independentes, a publicação nacional começa pelo segundo volume, Rivalidade Ardente’, antes de seguir para os demais títulos. Atualmente, são seis livros já lançados que compõem a série, que se conectam pelos personagens e times de Hockey e mais um livro chega no exterior em setembro.

A trama acompanha a rivalidade e o romance secreto entre dois astros do hóquei profissional: Shane Hollander e Ilya Rozanov. Rivais declarados dentro do gelo, eles vivem um caso longe dos holofotes, tentando manter tudo em segredo enquanto lidam com a pressão das carreiras, a exposição pública e as expectativas de um esporte historicamente marcado pelo conservadorismo. A série explora a química entre os protagonistas, a tensão sexual e os conflitos internos que surgem ao tentar equilibrar o amor verdadeiro em um ambiente de alta competitividade e preconceito.


O processo de acompanhar ‘Heated Rivalry’ me remeteu diretamente ao período em que conheci 'Skins'. Não apenas pela narrativa ousada, mas também pela experiência de acesso. Em 2007 e 2008, assistir à série britânica envolvia longas horas de download, comunidades no Orkut responsáveis por legendas em português e, muitas vezes, a necessidade de ver episódios escondido. Hoje, embora o lançamento de ‘Heated Rivalry’ também não tenha sido simultâneo no Brasil, o acesso informal acontece de forma mais ágil por meio de Twitter, Telegram e outras plataformas. Mesmo quem não consegue assistir aos episódios completos acabou consumindo a série por meio de cortes, fancams e compilações, o que reforça essa nova forma de engajamento para o consumo audiovisual.

Narrativa sem pudores, sexualidade e trilha sonora


O que mais me prendeu em ‘Heated Rivalry’, no entanto, foi sua narrativa direta, verdadeira e sem pudores. A série constrói seus arcos e personagens de maneira inteligente e foge de um dos grandes problemas das produções contemporâneas: o excesso de pudor, seja sexual ou emocional. Aqui, o desejo, a urgência e até a euforia de esconder o relacionamento são explorados sem medo, especialmente nas nuances sexuais, sem deixar espaços artificiais para dúvidas ou alguma suavização desnecessária.


Esse impacto dialoga diretamente com o que ‘Skins’ representou em seu lançamento. Em 2007, tudo ali parecia novo, inclusive para o canal E4, que apostou em uma narrativa jovem centrada em adolescentes que viviam muito além da escola, explorando drogas, bebida e descobertas sexuais. O sucesso internacional abriu espaço para outras produções voltadas ao público jovem, como ‘My Mad Fat Diary’, ‘Chewing Gum’ e ‘Misfits’. Embora essas temáticas nunca tenham sido exatamente inéditas, elas foram perdendo força com o passar dos anos, especialmente nas narrativas voltadas ao público LGBTQIAPN+. A ascensão de uma onda conservadora fez com que muitos canais incluíssem esses personagens a papéis secundários ou terciários, só ampliando seu espaço quando o engajamento nas redes sociais se tornava impossível de ignorar.

Dentro desse contexto, ‘Heated Rivalry’ acerta ao tratar seus protagonistas com clareza e responsabilidade. No desenvolvimento dos episódios, não ficam dúvidas sobre suas sexualidades: Shane é gay, Ilya é bissexual. Esse ponto é especialmente importante por dialogar com um tipo de construção narrativa bastante comum na literatura contemporânea, os chamados casais aquileanos, e por não transformar essa revelação artificial, como um chá revelação.


Outro destaque da série está na estrutura narrativa. O terceiro episódio, por exemplo, foca exclusivamente na história de Scott Hunter e Kip, personagens apresentados no primeiro livro da série ‘Game Changers’, escrita por Rachel Reid. É um episódio praticamente independente, que se conecta perfeitamente ao arco principal e ganha uma resolução feliz no quinto episódio. Foi uma escolha narrativa ousada e muito bem executada.

Falando em apoio à comunidade LGBTQIAPN+, a série faz uma referência particularmente ousada no quarto episódio, durante um momento de tensão entre Shane e Ilya em uma boate. A cena é construída com o uso simbólico das chamadas “luzes bissexuais” (azul, roxo e rosa) e embalada por ‘All the Things She Said’, sucesso do duo russo t.A.T.u., formado por Lena Katina e Yulia Volkova. Na série, a versão apresentada é um cover/remix do DJ britânico Harrison, lançada em 2022.


Na época de seu auge, a dupla foi apresentada ao público como lésbica por decisão do empresário, uma estratégia de marketing que mais tarde foi desmentida e amplamente criticada pela comunidade LGBTQIAPN+, sendo hoje reconhecida como um caso clássico de queerbaiting. Ainda que as integrantes tenham afirmado, anos depois, que a música e a estética do projeto ajudaram muitas pessoas a “saírem do armário”, a trajetória pública das artistas seguiu caminhos opostos. Yulia Volkova passou a fazer declarações homofóbicas e a adotar um discurso conservador, enquanto Lena Katina manteve um posicionamento consistente de apoio à comunidade LGBTQIAPN+.

Ao resgatar essa música e esse imaginário específico, 'Heated Rivalry' não apenas dialoga com a história da cultura pop queer, mas também provoca o espectador a refletir sobre representatividade, contradições e os limites entre visibilidade, marketing e apoio real.

O futuro da produção

Com retorno prometido para 2027, o criador da série, Jacob Tierney, já confirmou que irá manter 6 episódios por temporada. Os protagonistas, interpretados por Hudson Williams (Shane) e Connor Storrie (Ilya), já renovaram contrato para a segunda e terceira temporadas, o que permitirá explorar melhor tanto a dinâmica do casal quanto os personagens dos outros livros, todos ambientados em times fictícios de hóquei do Canadá e dos Estados Unidos.


Fora da ficção, o impacto da série também foi imediato na vida dos atores principais. Entrevistas, vídeos para redes sociais, participação em premiações e ensaios fotográficos se multiplicaram rapidamente, indicando uma virada significativa em suas carreiras. É quase certo que, até o início das gravações da próxima temporada, novos projetos surjam para ambos.

O impacto na vida da autora


Fora do contexto esportivo, a própria autora Rachel Reid falou à revista Variety sobre o impacto da adaptação televisiva. Além de ver toda a série de livros entrar nas listas de mais vendidos, ela compartilhou detalhes sobre seu diagnóstico de Parkinson. Reid explicou que o avanço da doença tem dificultado o processo de escrita no computador, exigindo adaptações para futuros trabalhos. Ao mesmo tempo, o sucesso da série possibilitou o contato com médicos especialistas, novos exames e ajustes de medicação que vêm ajudando a minimizar os efeitos da doença, especialmente no sono e no descanso corporal.

O "apoio" da NHL e a realidade dos vestiários

Um dos momentos mais curiosos dessa repercussão veio de fora da indústria do entretenimento. Um representante da NHL (Liga Nacional de Hóquei) celebrou o sucesso da série por renovar o interesse pelo esporte, em entrevista ao The Hollywood Reporter:

Existem muitas formas de se apaixonar pelo hóquei e, em 108 anos de história da NHL, talvez este seja o jeito mais original de conquistar novos fãs. Nos vemos no ringue. (tradução livre)

Apesar do tom otimista, a realidade do esporte para atletas LGBTQIAPN+ ainda é marcada pelo silêncio e pela necessidade constante de esconder quem se é para preservar contratos, patrocinadores e carreiras. Celebrar o interesse de novos públicos é positivo, mas até que ponto esse apoio é real? Em junho, durante o mês do orgulho, vários atletas da NHL se recusaram a usar a bandeira LGBTQIAPN+ em uniformes de noites temáticas, como destacou matéria da NBC News

Quando o apoio se limita a uma única noite, e mesmo assim pode ser cancelado, fica evidente o quanto ele ainda é frágil. No Brasil, o podcast ‘Nos Armários dos Vestiários’ aprofunda essa discussão, especialmente no contexto do futebol, e ajuda a compreender melhor a realidade local dos atletas LGBTQIAPN+.

Resta saber se toda essa animação e o novo público conquistado também serão respeitados nas arquibancadas, nos vestiários e entre os futuros atletas, permitindo que, independentemente do esporte, falar sobre sexualidade e amor deixe de ser um risco.


No fim das contas, 'Heated Rivalry' prova que arriscar vale a pena. Lançada no fim do ano e concorrendo diretamente com títulos como ‘IT: Bem-Vindos a Derry’ e ‘I Love LA’ (HBO), além da última temporada de ‘Stranger Things’ (Netflix), a série se tornou um sucesso para o Crave, que deve aproveitar a boa fase para investir em novas produções originais. Para a próxima temporada, existe até a torcida para que a cantora canadense Carly Rae Jepsen participe com uma música original, além de Miley Cyrus, que já se ofereceu para fazer uma música para a série. 

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