Hoje, 4 de setembro, é dia de comemoração dupla para a Beyoncé: ela celebra aniversário de nascimento e, de quebra, os 20 anos de "B'Day", álbum lançado originalmente em 2006. E ela não deixou a data passar em branco: relançou o disco como "B'Day (20th Anniversary Deluxe Edition)", agora com 31 faixas, músicas inéditas, novos arranjos, versos adicionais e remasterizações. Os destaques ficam por conta das faixas inéditas "Can I Watch You" e "Cuerpo", além de colaborações especiais com Maluma, Pharrell Williams e Selena Quintanilla.
Com isso, temos o motivo perfeito para revisitar, era por era, mais de duas décadas de uma carreira solo marcada por recordes comerciais, reinvenções constantes e mudanças reais na forma como a indústria musical funciona até hoje.
Antes da carreira solo
Antes de estrear como artista solo, Beyoncé já era conhecida como vocalista principal das Destiny 's Child, um dos grupos femininos mais bem-sucedidos da história da música pop.
Paralelamente, participou de filmes como "Austin Powers em Goldmember" e "Resistindo à Tentação", e colaborou com Jay-Z em "Bonnie and Clyde", faixa que viria a ser considerada, tecnicamente, a primeira música da era "Dangerously in Love".
2003 | Dangerously in Love
Em fevereiro de 2003, Beyoncé lançou Crazy in Love, parceria com Jay-Z que permaneceu oito semanas em primeiro lugar na Billboard Hot 100. O álbum Dangerously in Love, lançado em junho do mesmo ano, vendeu mais de 300 mil cópias na primeira semana nos Estados Unidos e gerou outros sucessos, como Baby Boy (nove semanas em primeiro lugar) e Me, Myself and I e Naughty Girl (top 5 da Billboard). Em 2004, ela venceu cinco categorias em uma única edição do Grammy Awards.
Vale lembrar do contexto: não existia streaming, playlist algorítmica ou TikTok pra empurrar hype. O sucesso dependia de rádio, MTV e venda física de CD nas lojas. Ou seja, aqueles 300 mil discos vendidos na primeira semana são 300 mil pessoas colocando a mão no bolso e comprando o CD de verdade, sem fazenda de bots dando play repetido no Spotify pra inflar streaming.
2006 | B'Day
Gravado em três semanas após as filmagens de Dreamgirls, B'Day foi lançado em 4 de setembro de 2006. A obra trouxe faixas como Déjà Vu e Irreplaceable, esta última se tornou a canção mais vendida nos Estados Unidos em 2007, permanecendo dez semanas em primeiro lugar na Billboard. A turnê subsequente, The Beyoncé Experience é frequentemente citada como uma das apresentações mais fortes da carreira em termos vocais.

2008 – 2010 | I Am... Sasha Fierce
Lançado em outubro de 2008, o álbum introduziu o alter ego Sasha Fierce, dividindo o repertório entre faixas mais introspectivas e outras voltadas à performance de palco. Single Ladies (Put a Ring on It) tornou-se um dos primeiros grandes fenômenos virais de dança da era da internet, e Halo se tornou, anos depois, a primeira canção feminina dos anos 2000 a ultrapassar um bilhão de streams no Spotify. O álbum vendeu quase 500 mil cópias na primeira semana e encerrou a década com Beyoncé sendo eleita artista da década por veículos como Billboard e The Guardian.
Após o fim da parceria profissional com o pai, Matthew Knowles, que gerenciava sua carreira, Beyoncé lançou "4", um álbum de orientação mais próxima do R&B clássico e do soul, em contraste com o pop eletrônico que dominava as paradas na época. O disco vazou 21 dias antes do lançamento oficial, mas ainda assim estreou em primeiro lugar. Faixas como Run the World (Girls) e Love on Top ganharam relevância crescente ao longo dos anos, hoje superando em streams outros sucessos anteriores da carreira.
Ainda em 2011, durante o MTV Video Music Awards, Beyoncé anunciou publicamente sua primeira gravidez após a apresentação de Love on Top, abrindo o paletó no palco e revelando a barriga diante das câmeras. O momento se tornou um dos anúncios de gravidez mais comentados da cultura pop, gerando um pico recorde de buscas na internet na época. Blue Ivy Carter, nasceu em janeiro de 2012.
2013 | Super Bowl XLVII
Em fevereiro de 2013, Beyoncé comandou o show do intervalo do Super Bowl XLVII, em Nova Orleans, com uma apresentação de cerca de 12 minutos que incluiu um mini-reencontro com as ex-parceiras do Destiny's Child, Kelly Rowland e Michelle Williams.
Assistida por 110,8 milhões de espectadores e premiada com um Emmy Award, a apresentação segue sendo referência mais de uma década depois, geralmente atrás apenas de Prince ou Michael Jackson.

2013 | BEYONCÉ

Lançado sem aviso prévio em 13 de dezembro de 2013, o quinto álbum de estúdio, autointitulado, foi disponibilizado diretamente no iTunes, sem estratégia tradicional de divulgação. Vendeu mais de 617 mil cópias em três dias nos Estados Unidos e é apontado por profissionais da indústria como um dos principais motivos pela mudança do dia padrão de lançamentos musicais, de terça para sexta-feira. O álbum abordou temas como sexualidade, feminismo e maternidade.
A repercussão de Flawless ultrapassou os limites da música e se tornou um marco na popularização do debate feminista dentro da cultura pop. Ao incorporar diretamente o discurso de Chimamanda Ngozi Adichie, que define feminista como "a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica dos sexos", Beyoncé levou uma discussão até então mais restrita a círculos acadêmicos e literários para o centro das paradas musicais, rádios e pistas de dança.
Apesar da recepção crítica extremamente positiva e do impacto imediato no mercado, o álbum autointitulado marcou o início de uma controvérsia recorrente entre Beyoncé e o Grammy Awards: na cerimônia de 2015, BEYONCÉ concorreu a Álbum do Ano, mas a estatueta foi para Beck, com Morning Phase. Esse seria o primeiro de uma série de ciclos em que Beyoncé, mesmo aclamada pela crítica, ficaria de fora da categoria principal do prêmio.2016 | Lemonade

Em fevereiro de 2016, Beyoncé lançou Formation, seguida de uma apresentação no intervalo do Super Bowl com referências aos Panteras Negras, movimento de resistência política negra dos anos 1960. A canção gerou forte reação nos Estados Unidos, incluindo tentativas de boicote e críticas de setores conservadores. Em abril do mesmo ano, veio Lemonade, álbum visual que aborda temas como traição conjugal, identidade racial e feminismo negro.
O disco se tornou o primeiro da história a debutar simultaneamente com todas as suas 12 faixas na Billboard Hot 100, e é amplamente considerado, pela crítica especializada, um dos melhores álbuns do século XXI.
Apesar da recepção crítica e comercial, o Grammy de Álbum do Ano foi para Adele, que recusou publicamente o prêmio por considerar o resultado injusto. Na mesma cerimônia, realizada em fevereiro de 2017, Beyoncé, grávida dos gêmeos, apresentou uma performance amplamente elogiada, com estética que remetia a divindades maternas e africanas.
2018-2019 | Coachella, Everything is Love e The Gift
Em abril de 2018, Beyoncé se apresentou no festival Coachella, tornando-se a primeira mulher negra a ser headliner do evento. A apresentação, que exigiu oito meses de ensaios e mais de 150 pessoas no palco, fez referência às universidades historicamente negras dos Estados Unidos e incluiu trechos de discursos de Malcolm X e da cantora Nina Simone. O show foi documentado no filme Homecoming (2019). Ainda em 2018, Beyoncé e Jay-Z lançaram, em conjunto, o álbum Everything is Love, assinado como The Carters, com o clipe de Apeshit gravado no Museu do Louvre. Em 2019, ela lançou The Gift, trilha sonora do live-action de O Rei Leão (no qual dublou a personagem Nala).
2020 | Black is King
Lançado durante a pandemia de Covid-19 e em meio às manifestações após as mortes de George Floyd e Breonna Taylor, o filme visual Black is King reinterpreta a narrativa de O Rei Leão com estética afrofuturista. A produção resgata a história do compositor sul-africano Solomon Linda, autor original de The Lion Sleeps Tonight, que morreu em situação de pobreza apesar do sucesso comercial da canção ao longo das décadas.
2022 | Renaissance
Lançado em junho de 2022, "Renaissance" trouxe sonoridades de house e música disco, tornando Beyoncé a primeira artista da história a emplacar o primeiro lugar simultaneamente em 23 paradas da Billboard. O álbum conta com participações de Grace Jones, Tems e Beam, além de resgatar, via samples, vozes de nomes como Big Freedia, Donna Summer e Moi Renee. O disco é dedicado ao seu tio, Johnny, homem gay que morreu de complicações relacionadas à Aids, e resgata diretamente referências da cultura ballroom, com destaque para o sample da voz de Kevin Aviance em uma das faixas.

Não à toa, é comum ver críticas de que Beyoncé "não faz nada sozinha", apontamento que ignora, ou minimiza, uma escolha deliberada da artista. Ao creditar, samplear e trazer para o centro do palco vozes historicamente marginalizadas, sobretudo artistas negros e LGBTQ+ do próprio cenário ballroom que ajudou a moldar boa parte da cultura pop atual, Beyoncé usa sua posição de destaque para dar visibilidade e reconhecimento a quem raramente recebe os créditos que merece.
2024 | Cowboy Carter
Durante o intervalo do Super Bowl de 2024, um comercial da Verizon anunciou o lançamento de material inédito. Pouco depois, Beyoncé lançou Texas Hold'em e Sixteen Carriages, ambas de sonoridade country, gênero historicamente associado a artistas brancos, mas com raízes na cultura musical negra.
A aproximação de Beyoncé com o country, no entanto, não começou em 2024. Em 2016, ela já havia dividido o palco do
Country Music Association Awards (CMA) com o trio
Dixie Chicks para uma performance de Daddy Lessons, faixa country presente em "Lemonade". Apesar dos elogios de nomes como
Chris Stapleton e
Garth Brooks, a apresentação gerou forte reação negativa nas redes sociais, com parte do público country questionando sua presença no evento, reação amplamente associada, por veículos da imprensa internacional, a um viés racial.

Diante desse histórico, o lançamento de "Cowboy Carter" em 2024 reacendeu o debate: parte das rádios country resistiu a tocar o álbum, mas a recepção do público do gênero foi, de forma geral, mais receptiva do que em 2016. O disco venceu a categoria de Melhor Álbum Country no Grammy de 2025, tornando Beyoncé a primeira mulher negra a receber o prêmio na categoria. Na mesma cerimônia, ela também conquistou, pela primeira vez na carreira, o Grammy de Álbum do Ano, além de se consolidar como a artista com mais Grammys da história, somando ao todo 35 estatuetas.
E agora?
Com B'Day relançado e a era Cowboy Carter digerida, resta a expectativa: existe uma teoria consistente entre os fãs de que a trilogia iniciada em "Renaissance" segue resgatando, ato por ato, capítulos da história negra na música. Se o ATO I foi dedicado à cultura ballroom e o ATO II reivindicou as raízes negras do country, a torcida geral é que o ATO III mergulhe no rock, gênero que, não custa lembrar, também nasceu de mãos negras antes de ser embranquecido pela indústria ao longo das décadas.
E enquanto esse terceiro ato não vem, corre por aí um sonho especialmente carioca: o de que o prefeito Eduardo Paes consiga trazer a Queen Bey para o Todo Mundo no Rio 2027 ou 2028. Aliás, enquanto escrevia esse parágrafo final já me peguei pensando em outros capítulos que mal toquei neste texto, como a apresentação dela na NFL em 2024 e a sua incursão pela pintura.
São tantos capítulos de história, que se fosse um livro, certamente teria mais de um volume. Mas no momento, preciso parar por aqui. Espero que tenha sido tão bom relembrar essa trajetória quanto foi para mim escrever sobre ela.