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'A Culpa É das Estrelas' | Vivendo os pequenos infinitos


A Culpa É das Estrelas (The Fault in Our Stars, Estados Unidos, 2014) chegou aos cinemas em junho deste ano e foi bem acolhido por crítica e público, com bilheteria beirando os 300 milhões de dólares (contra um orçamento de apenas 12) e críticas predominantemente favoráveis. Adaptado do muito estimado romance de John Green, eis um filme que consegue manter-se fiel à abordagem espirituosa do autor sem no entanto se tornar refém do livro. A história, que envolve o romance de dois adolescentes com câncer, é vista a partir de sua protagonista, Hazel, com um olhar de menos indulgência e mais sagacidade, com direito a um punhado de neologismos e ironias ao tratar da doença. Augustus, o garoto por quem ela se apaixona, também tem seus meios, como a metáfora do cigarro (que ele põe na boca sem nunca acender). Os personagens tentam não se deixar definir pelo câncer, que lhes consome a vida ainda tão cedo — embora ele sempre esteja presente como um obstáculo imprevisível.

Na transposição para a tela, há o que funcione melhor ou pior do que no texto original. A narração em primeira pessoa tem melhores resultados no livro, em que a condução da protagonista revela mais detalhes sobre suas intenções, escolhas e emoções — e particularmente o processo de Hazel descobrir-se apaixonada por Augustus parece um tanto rápido no filme. Porém, os roteiristas souberam reparar aquele que é um dos pontos mais fracos no texto de Green, que é a subtrama envolvendo o escritor Peter Van Houten — aqui tendo contornos mais verossímeis e uma resolução mais satisfatória. Há também o que soa estranho nas duas obras, como o beijo na casa de Anne Frank — mas talvez exista uma doçura peculiar nessa escolha, e o momento é importante e mostrado como tal. De todo modo, a direção de Josh Boone, em seu segundo trabalho para o Cinema, sabe reconhecer a força do material que tem em mãos, a sensação de urgência em o casal aproveitar ao máximo o tempo que tem junto sob o assombro da incerteza e da implacabilidade, e cria uma narrativa dinâmica e fluida, que nunca perde o ritmo em suas mais de duas horas.

Mas ao final a história brilha em seus personagens, e a escolha de elenco é das mais acertadas, com veteranos e novatos muito à vontade em seus papéis — como Laura Dern (a sempre prestativa mãe de Hazel) e Willem Dafoe (o amargo Van Houten), e Nat Wolff (o histriônico Isaac) e Ansel Elgort (o galante e carismático Augustus). O destaque, claro, é Shailene Woodley, que chegou a escrever para Green e Boone pedindo o papel de Hazel. Na audição, emocionou a todos. E está absolutamente deslumbrante: uma das atrizes mais talentosas da sua geração, ela tem aqui seu maior momento até agora, com domínio absoluto de sua personagem numa interpretação sensível, convincente e apaixonada. Com Elgort, forma um par de química invejável e por cuja alegria vale torcer.

Quando, numa declaração que começa em termos matemáticos e chega a uma das linhas mais famosas da obra, Hazel fala do quão grata é pela eternidade dos seus dias com Augustus, A Culpa É das Estrelas está celebrando a felicidade desses pequenos momentos bem vividos, pequenos infinitos entre dias contados. As circunstâncias perversas da doença, de uma injustiça terrível com vidas tão jovens, dão mais tenacidade à sua história. Se grandes romances podem ser medidos também por seus obstáculos, este aqui já tem lugar entre os memoráveis.

O filme foi lançado recentemente em home video no Brasil, trazendo, além do corte de cinema, uma versão estendida com 7 minutos adicionais, esta disponível apenas em Blu-ray ou no DVD exclusivo da Livraria Saraiva. As edições incluem comentários em áudio com o diretor Josh Boone e o autor John Green, seis cenas excluídas, seis featurettes promocionais, galeria de imagens e o documentário "Estrelas Alinhadas: Do Livro para a Tela" (este apenas em Blu-ray). Ambas versões também podem ser reservadas ou adquiridas na iTunes Store.



'A Culpa É das Estrelas' | Vivendo os pequenos infinitos 'A Culpa É das Estrelas' | Vivendo os pequenos infinitos Reviewed by Mateus Denardin on 12:00:00 Rating: 5