'Esta Terra Selvagem', de Isabel Moustakas

São Paulo - Dias Atuais. Uma onda de violência assola a cidade e tem matado estrangeiros, judeus, negros, nordestinos e gays. Esse é o…
São Paulo - Dias Atuais. Uma onda de violência assola a cidade e tem matado estrangeiros, judeus, negros, nordestinos e gays. Esse é o cenário de “Esta Terra Selvagem”, escrito pela brasileira Isabel Moustakas, e lançado em março pela Companhia das Letras.

Bastou eu ler uma pequena sinopse e ver a capa do livro que eu já me interessei pela história. Dizem “não se deve julgar um livro pela capa”, mas isso é uma tremenda mentira, pois a proposta da capa é transmitir o conteúdo do livro, certo? E “Esta Terra Selvagem” tem uma belíssima capa, com uma ilustração maravilhosa que soube cumprir a missão.  A silhueta de um homem, com vários edifícios dentro, e para completar a imagem, tudo manchado de sangue.

Aliás, sangue é o que não falta na história. Se você gosta de romance policial, daqueles para ler em uma sentada só, pode ler “Esta Terra Selvagem” tranquilo. O livro é narrado do ponto de vista de João, um repórter policial que trabalha no jornal Estadão. Há sete meses houve um crime que chocou o país: um boliviano e sua esposa brasileira foram mortos de maneira brutal; depois de terem sido torturados, foram queimados vivos. A filha do casal, uma adolescente de 16 anos, foi sequestrada e também torturada, porém depois de uma semana soltaram a garota.

Após sete meses, os casos contra estrangeiros, judeus, negros, nordestinos e gays começam a aumentar de maneira tenebrosa, e a adolescente resolve dar uma entrevista exclusiva à João e contar tudo o que aconteceu. Após a entrevista, a garota se mata na frente do repórter. A partir daí, João começa a investigar quem está por trás desses crimes.

Em tempos que vemos diariamente casos de racismo e homofobia, a leitura desse livro é super válida para nos fazer refletir. “Esta Terra Selvagem” tem uma linguagem fácil e dinâmica, fazendo o leitor compreender sem dificuldade a história e devorar cada página. Mas pelo assunto ser pesado, em alguns momentos eu parei a leitura e respirei fundo, pois as cenas das descrições das mortes são um pouco chocantes.

Gostei bastante que o livro se passa em São Paulo, pois não é muito comum termos esse tipo de literatura por aqui. Me lembrou a série infanto-juvenil “Vagalume”, em que muitos livros eram de suspense/policial e também se passavam no Brasil. Outro ponto bacana foi que mostrou o quanto João ficou envolvido e mexido com a história que investigava e as cenas que presenciou. Geralmente nos livros e filmes as pessoas presenciam mortes e lidam com todo tipo de terror e sempre estão lindas e belas, seguindo a vida tranquilamente. Mas na verdade não é assim. Somos humanos e toda essa violência nos afeta bastante.

Mas o livro tem alguns pontos negativos também. Para começar, eu acho que a história poderia ter sido muito mais explorada. Essa gangue agia só em São Paulo? Como ela começou? João foi o único jornalista que se envolveu com a história? E as famílias de outras vítimas? Há diversos pontos que poderiam ter sido explorados e não foram. Aliás, ótimo gancho para uma continuação ou spin-off. Outro ponto é que todas as pessoas falam muito facilmente com o João. Vida de jornalista não é assim não, na maioria das vezes é preciso persistir muito para a pessoa colaborar.

Falando do suspense da história, uma coisa que me incomodou é que desde o começo ficou muito na cara que certo personagem estava junto com a gangue de assassinos.  Ah, e um detalhe técnico que eu também não gostei (mas isso é mais gosto pessoal mesmo) é que os diálogos tem aspas no lugar de travessão.

De qualquer forma, recomendo a leitura, pois faz uma bela crítica à nossa atual sociedade, e aguardo sinceramente por uma continuação.
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