‘A Baleia’: uma história sobre nossas partes mais repulsivas

A Psicóloga Bruna Lima comenta um dos filmes ganhadores do Oscar 2023

Me interesso por filmes difíceis de serem assistidos. "A Baleia" (The Whale) é um desses filmes. A história é sobre um homem chamado Charlie (Brendan Fraser), que luta contra a obesidade e carrega um trauma que afeta sua vida. Mas é também sobre algo maior: aceitar e abraçar nossas partes "repulsivas". E isso é algo que nós, a contragosto, precisamos aprender.

Charlie é um homem que luta contra a obesidade. Ele sabe que precisa emagrecer, é uma questão de vida ou morte, mas infelizmente não consegue controlar a compulsão por comida. Assim como Charlie, todos nós vivemos em um mundo em que a aparência e os modelos são mandatórios, por isso, talvez seja duplamente sofrido viver a própria parte repulsiva.
   
A verdadeira mensagem de "A Baleia" não é sobre obesidade, leio assim, mas sobre a não aceitação da própria condição de ser, da capacidade ou incapacidade de aceitar sua própria verdade. Isolá-la dentro de nós ou nos darmos por vencidos, aceitando nomes e os pecados que eles contém, pode nos fazer cada vez mais doentes.

E aqui um spoiler: A não aceitação da comunidade e do próprio Charlie sobre ser gay o levou para um lugar obscuro onde somente a autopunição é possível.

Ellie (Sadie Sink), filha de Charlie, é uma personagem importante do filme por ser a guardiã da verdade. No contexto em que todos estes personagens viviam a verdade era tomada como transgressão, crime.

Ellie rouba a verdade das pessoas porque a verdade sempre lhe foi negada. As convenções sociais não lhe importam. O que importa é a verdade. E a verdade é o algo que Charlie tinha se afastado há muitos anos, a sua verdade foi interpretada como grande falha.

Mas também é fato nossa dificuldade em enfrentar nossos medos e nossas partes mais "repulsivas". Charlie está preso em sua dor. Para sair dela, ele precisa enfrentar a verdade.

Todos nós temos partes "repulsivas" que podem ser francamente repugnantes, ou que podem ser interpretadas como perversidades mas não o são, ou ainda serem partes que são as duas coisas ao mesmo tempo. Isso é possível? Parece que tudo é, basta estar vivo.

Além disso, perder alguém que amamos é difícil e pode nos deixar levar a experimentar o ódio. Ódio de você, ódio de mim, ódio de todos. E isso é a vida.

A busca da verdade


O ensaio escolar que Ellie escreveu quando era mais nova foi uma peça central na trama. A mãe de Ellie, ex-esposa de Charlie, o enviou sem a menina saber.

Charlie então guardou o texto escrito por sua filha como verdadeira joia. O texto era pra ele autêntico, honesto e verdadeiro, além de ser uma obra confeccionada por sua pequena.

Eis o ensaio escolar de Ellie na integra:

No incrível livro 'Moby Dick' do autor Herman Melville, ele conta a história de estar no mar. Na primeira parte, o autor, se chamando de Ismael, está numa pequena vila costeira e divide uma cama com Queequeg.

O autor e Queequeg vão à igreja e depois embarcam num barco capitaneado por Ahab, que não tem uma perna e deseja muito matar a baleia Moby Dick, que é branca.

No decorrer do livro, o pirata Ahab se depara com muitas dificuldades. Sua vida inteira gira em torno de matar uma certa baleia. Eu acho que isso é triste por que a baleia não tem emoções e ele quer matar ela mesmo assim.

Ela é só um pobre e enorme animal. E eu me sinto mal pelo Ahab também por que sua vida será melhor se ele matar esta baleia, ele acha que com isso sua vida irá melhorar.

Mas na verdade não vai adiantar em nada. Eu fiquei muito triste com esse livro e senti muitas emoções pelos personagens.

E eu fiquei mais triste quando eu li os capítulos chatos que eram só descrições de baleias. Porque eu sabia que o autor só estava tentando nos poupar de sua própria história triste. Pelo menos um pouquinho.

Uma interpretação sobre o ensaio escolar de Ellie


Talvez Ellie não soubesse sobre a profundidade do texto que escreveu, mas parece que ele fala com a mais pura sinceridade sobre as vidas que observava em sua infância. Tomo a liberdade de o reescrever de forma um pouco mais compreensiva:

Na incrível história do autor que é seu pai, ele conta estar vivendo a vida. Na primeira parte, Charlie, se chamando de homem heterossexual, está num pequeno bairro onde pode existir como pessoa homossexual e divide uma cama com um homem.

Charlie e este homem, que é seu parceiro, vão à igreja Nova Vida e depois desta experiência negativa embarcam num "barco capitaneado" por Liz (Hong Chau), que toma a frente os defendendo (irmão e amigo) da a injustiça vivida. Liz, neste ponto, já não tem mais seu irmão e deseja muito matar todos os que desaprovaram seu irmão gay.

No decorrer da vida, Liz se depara com muitas dificuldades. Sua vida inteira gira em torno de vingança. Ellie acha que isso é triste por que a massa que os desaprovam não entende de suas emoções e da verdade de Charlie e seu parceiro.

Essa pobre massa é só uma besta fera, incapaz de sentir emoções humanas. E Ellie se sente mal pela Liz e também pelo fato de que sua vida será melhor se ela eliminar, aniquilar a massa maledicente. Ou então a representação dela, seu amigo Charlie, pai de Ellie, que neste momento já está tão gordo com uma baleia, gigante como a massa que o maldiz.

Liz acha que fazendo isso irá melhorar sua vida. Mas na verdade não vai adiantar em nada. Ellie ficou muito triste com esse livro e sentiu muitas emoções pelos personagens.

E ainda, Ellie ficou mais triste ainda quando eu percebeu que por muitos anos as vidas de seu pai, de Liz, de sua mãe e até a dela eram chatas por que os adultos só repetiam a ideia de como o mundo podia ser mau e de como a tragédia afetou as suas vidas.

Porque Ellie sabia que seu pai só estava tentando os poupar de sua própria história triste em que perdeu o homem pelo qual era apaixonado, sua razão de viver e seu próprio valor. Não reagindo, não ficando com ódio, raiva, se isolando e comendo.

'Pelo menos um pouquinho' ele conseguiu desviar a atenção de todos para longe da sua dor de pensar que ele é um homem reprovável por ser gay e então ele se esconde embaixo de camadas e camadas de gordura.

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