Quando o Ministério da Educação anunciou o MEC Livros, em 1º de abril, houve quem achasse trote. Um aplicativo gratuito do governo federal, com quase 8 mil títulos, empréstimo digital, suporte para dislexia, compatibilidade com leitores de tela e um acervo que vai de Clarice Lispector a Han Kang.
A realidade surpreendeu o ceticismo: em apenas uma semana de funcionamento, a plataforma registrou mais de 122 mil empréstimos e alcançou cerca de 291 mil usuários em todo o país, segundo dados da Agência Brasil.
O livro mais acessado na primeira semana foi 'A Cabeça do Santo', da escritora Socorro Acioli, o que chama a atenção sobre a escolha do público, pois não foi um best-seller de “aeroporto”, mas uma obra literária com raízes no nordeste brasileiro, desenvolvida em uma oficina conduzida por Gabriel García Márquez. Esse dado sozinho vale uma pausa para reflexão.
Mas os números também revelam outra coisa: havia uma demanda reprimida enorme. Quase 300 mil pessoas acessaram a plataforma em sete dias, mostrando o comportamento de quem estava esperando por uma coisa: a facilidade de acesso à informação.
A biblioteca que cabe no bolso e os seus limites
O MEC Livros funciona como uma biblioteca pública online, permitindo que qualquer pessoa tenha acesso a livros sem custo, desde que possua uma conta ativa no portal Gov.br. O sistema replica a lógica do empréstimo físico: os livros podem ser "utilizados" por um período de até 14 dias, com possibilidade de renovação por mais duas semanas.
Há recursos de gamificação, notificações automatizadas, um agente de inteligência artificial para sugestões de leitura e funcionalidades específicas de acessibilidade: com opções de ajuste de fonte e contraste, suporte para pessoas com dislexia e compatibilidade com leitores de tela.
A iniciativa é tecnicamente bem construída, com o alcance imediato evidenciando que a equipe do MEC acertou tanto na execução quanto no timing. Vivemos um momento em que o debate sobre acesso à leitura ganhou camadas novas: dos audiobooks como ferramenta de inclusão para pessoas com TDAH ou dislexia, até a popularização de plataformas digitais de empréstimo em países com infraestrutura muito mais consolidada do que a nossa.
O MEC Livros chega nessa corrente e ocupa um espaço que, honestamente, deveria ter sido ocupado há muito mais tempo. Mas é aqui que o entusiasmo precisa ser qualificado. Porque o aplicativo resolve um problema enquanto outro, muito mais antigo e estrutural, permanece sem resposta: e como andam as Bibliotecas Públicas brasileiras?
O Brasil que fechou 800 bibliotecas
Conforme números extraídos do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), entre 2015 e 2020, o Brasil perdeu ao menos 764 bibliotecas públicas. Em 2015, o país tinha 6.057 unidades cadastradas, número que caiu para 5.293 em 2020.
Dos 764 fechamentos, 698 aconteceram nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Em São Paulo, o número de bibliotecas públicas caiu de mais de 800 para pouco mais de 300 em cinco anos, segundo o SNBP.
Os próprios dados oficiais podem não capturar o tamanho real do problema. A fragilidade do sistema nacional de cadastro de bibliotecas é antiga, e fechamentos locais frequentemente somem das estatísticas antes de chegarem a qualquer relatório federal. O número que se conhece já é preocupante o suficiente para justificar a pergunta: como um país que fechou centenas de bibliotecas em cinco anos vai tratar um aplicativo como política cultural?
De acordo com a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), o país alcançou um ponto crítico: pela primeira vez, os não leitores são maioria, correspondendo a 53% da população. O número de leitores caiu para 93,4 milhões (47%), um recuo expressivo frente aos 55% registrados em 2007, revelando uma trajetória contínua de perda do vínculo com a leitura.
Esses números refletem escolhas, ausências e desmontes concretos, entre eles o fechamento de bibliotecas e o enfraquecimento de políticas públicas de acesso ao livro.
Porque o que uma biblioteca pública carrega não é substituível por nenhuma plataforma, por melhor que ela seja. Não se trata apenas de acesso gratuito a livros, pois isso o aplicativo consegue oferecer, dentro de certas condições. Trata-se da memória local armazenada em acervos físicos, dos serviços e acesso à cultura, ao desenvolvimento científico e principalmente do papel social que essas unidades informacionais cumprem.
Uma biblioteca não é só um conjunto de livros disponíveis. É um espaço físico com endereço, horário de funcionamento, mesa para sentar, tomada para carregar o celular, Wi-Fi para quem não tem internet em casa, e (quando funciona corretamente sem a terceirização do trabalho de gestão da informação) um bibliotecário capaz de mediar o encontro entre uma pessoa e um material que ela ainda não sabe que procura.
É um lugar de convivência, acolhimento e compartilhamento de conhecimento em um país onde o acesso à cultura costuma ser segmentado por renda, bairro, cor, credo e orientação sexual.
Quando o digital amplia e quando ele esconde
O MEC Livros é uma boa notícia. Não estou aqui dizendo o contrário. Com mais de 1,2 mil lançamentos e best-sellers disponíveis, a projeção é de que os títulos possam ser acessados por 1,4 milhão de pessoas anualmente. Para uma iniciativa pública e gratuita, são números que justificam o investimento.
Contudo, o risco é que essa solução passe a ser usada como argumento para não investir no que ela não consegue substituir. O acesso digital resolve o problema de quem tem smartphone, conta Gov.br ativa, internet razoável e capacidade de navegar em plataformas.
Exclui, portanto, parte significativa da população mais vulnerável, justamente aquela que mais precisaria de acesso gratuito à leitura. As bibliotecas públicas em muitos municípios são um elo fundamental da cultura. Nelas, são desenvolvidas ações culturais muito importantes para a formação do indivíduo como cidadão.
Um aplicativo tem seus benefícios, mas também seus contras. Esse instrumento não media leituras, apresenta às crianças opções de leitura mais cativantes que os clássicos obrigatórios, ou oferece um espaço de estudo para estudantes periféricos. Muito menos é um acervo de informações históricas ou um ponto de encontro entre gerações.
A lógica da solução digital também carrega uma armadilha sutil. Ela permite que gestores públicos justifiquem a não manutenção de espaços físicos com o argumento de que "existe um app para isso". Com o fechamento das bibliotecas, o conhecimento corre o risco de se tornar mercadoria e sabemos que a biblioteca garante que ele seja de acesso ao público.
Um aplicativo governamental pode ser descontinuado, ter o orçamento cortado ou mudar de formato com uma troca de governo. Uma biblioteca com décadas de história em uma cidade do interior tem outro tipo de representatividade. E a sua relevância, não tem como ser substituída.
O que os dados do MEC Livros revelam sobre o país
Entre os estados, São Paulo lidera com 10.045 leitores ativos e 5.366 livros lidos na primeira semana, seguido por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará e Bahia.
A interpretação mais honesta desse dado não é que esses estados têm mais leitores do que o esperado: é que havia demanda reprimida, pessoas esperando por um ponto de acesso que chegasse onde a estrutura física não chegou.
O próprio acervo do MEC Livros faz escolhas editoriais que merecem nota. A plataforma inclui categorias como "Saberes Indígenas", "Literatura Nordestina" e "Livros para a Infância", o que indica uma curadoria atenta à diversidade, não apenas um espelho dos best-sellers de livrarias. Isso é diferente do que se costuma ver em iniciativas digitais que replicam, sem questionar, a hierarquia do mercado editorial.
E há algo de sintomático no fato de que o livro mais lido na primeira semana seja uma obra de uma autora brasileira, publicada originalmente em uma oficina de García Márquez, sobre um menino nordestino que ouve as preces das mulheres para Santo Antônio.
É literatura, no sentido mais pleno do termo. O público que chegou ao MEC Livros não chegou em busca de entretenimento de baixa exigência, mas sim em busca de leitura crítica.
O que falta dizer
O MEC Livros abre uma porta importante, com alcance real e desenho inclusivo. Mas uma porta não é uma política de leitura completa. É um componente dela. O Brasil que fechou quase 800 bibliotecas em cinco anos precisa, sim, de soluções digitais, como também de investimento nas estruturas físicas que o digital não repõe.
Precisa de bibliotecários concursados, de acervos atualizados, e espaços que funcionem como centros culturais vivos, não apenas repositórios de livros. Até porque ninguém vai até o prédio que está fechado, sem funcionário, sem Wi-Fi e sem manutenção.
É possível celebrar o MEC Livros e, ao mesmo tempo, cobrar que ele seja parte de uma política mais ampla, e não a desculpa para não haver uma. A pergunta que fica não é se o app é bom. É o que acontece com quem não tem smartphone, não tem internet e mora na cidade que fechou a biblioteca.

