Em um desabafo sincero nos stories do Instagram, o cantor Zé Felipe revelou que sempre teve dificuldades com a leitura. Em 2025 ele virou assunto nas redes, quando foi anunciar um dos vencedores do Prêmio Multishow e teve ajuda da apresentadora principal, Kenya Sade.
Diagnosticado com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), ele descreveu um ciclo familiar para muita gente: chegar até a metade de uma página, reler a mesma linha várias vezes e, inevitavelmente, largar o livro. A solução que o artista encontrou foi o audiobook (e curiosamente, não foi uma dica com inserção publicitária). O entusiasmo com que falou sobre o formato virou, sem querer, um convite para um debate mais amplo e necessário: afinal, ouvir um livro conta como leitura?
O que é leitura, afinal?
Por muito tempo, a ideia de "ler um livro" ficou presa a uma imagem específica: a pessoa sentada, em silêncio, com páginas de papel entre os dedos. Qualquer desvio disso parecia uma versão inferior da experiência, um atalho, uma trapaça.
Mas essa visão ignora algumas realidades importantes. Pessoas cegas ou com baixa visão sempre acessaram literatura por meio de outros formatos, do braille à narração ao vivo. Culturas inteiras transmitiram conhecimento oralmente por milênios, antes mesmo da palavra escrita. O ato de ouvir uma história, compreendê-la, ser transformado por ela, sempre foi leitura, mesmo sem a página.
O audiobook não é um substituto de segunda categoria para o livro físico. É outro canal para a mesma experiência: o encontro entre uma pessoa e um texto. O que muda é o sentido ativado no processo, não a profundidade do que é absorvido.
Acessibilidade não é exceção, é ponto de partida
O relato de Zé Felipe importa além da curiosidade sobre a rotina de um famoso. Ele importa porque coloca luz em algo que o mercado editorial e a cultura em torno dos livros ainda resistem em admitir: a leitura tradicional é excludente.
Exclui quem tem dislexia. Exclui quem tem TDAH. Exclui quem tem deficiência visual. Exclui quem cresceu sem acesso a livros e nunca desenvolveu fluidez na leitura. Exclui quem trabalha doze horas por dia e só tem tempo de "ler" enquanto dirige ou lava a louça.
Não é raro que quem menciona audiobooks ainda ouça comentários do tipo "mas você não leu de verdade" ou "isso não conta". Esse julgamento diz menos sobre o formato e mais sobre uma relação com os livros que supervalorizou o suporte, o papel, a lombada, o cheiro, em detrimento do conteúdo.
Quando o audiobook entra nessa equação, ele não está simplificando a literatura. Está ampliando quem pode acessá-la.
Por que essa conversa precisa acontecer agora
O mercado de audiobooks cresce no Brasil e no mundo. Plataformas se multiplicam, catálogos se ampliam, e cada vez mais títulos chegam simultaneamente em texto e em áudio. Esse movimento não é uma ameaça à leitura, é uma expansão dela.
O que o relato de Zé Felipe nos lembra é simples: não existe jeito certo de chegar até uma história. Existe o jeito que funciona para cada pessoa, e isso é suficiente.
Ouvir é ler. Ler é ouvir. E qualquer debate que tente hierarquizar esses caminhos está, na prática, decidindo quem merece o título de leitor, e esse é um poder que ninguém deveria ter.
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