O Brasil que enche o álbum e esvazia a quadra

Jogos de vôlei nas programações da TV aberta tem menos espaço, mesmo com a quantidade vitórias
A fábrica da Panini em Barueri produz pelo menos 11 milhões de cromos por dia para o álbum da Copa do Mundo. São 980 figurinhas para completar a coleção, 68 delas especiais em papel metalizado, envelope a R$ 7,00 com sete cromos, álbum brochura por R$ 24,90, capa dura por R$ 74,90 e uma versão premium que chega a R$ 359,90. Mesmo com esses valores consideravelmente inacessíveis para uma parcela significativa dos brasileiros, há uma demanda expressiva de pessoas apaixonadas por trocar figurinhas repetidas e dispostas a pagar, no mínimo, R$ 1.004,90 para completar sua coleção.

O "país do futebol" sabe prestigiar seus atletas e fazer o esporte estar em todos espaços possíveis.

Enquanto isso, para assistir a um jogo da Superliga, que é o principal campeonato de clubes do vôlei brasileiro, é necessário navegar por um labirinto de assinaturas, aplicativos e pacotes de TV por assinatura. Não existe uma grade fixa, não existe um canal de referência, não existe o equivalente do "vai passar na Globo às oito". O torcedor que quer acompanhar o esporte precisa descobrir, a cada competição, em qual plataforma os direitos foram negociados dessa vez.

O álbum e a fé coletiva

Houve um tempo em que completar o álbum da Copa era uma missão ao alcance de qualquer criança com paciência e um primo generoso nas trocas. O pacote de figurinha custava o valor de um picolé, o álbum cabia no orçamento da mesada e a coleção inteira era uma conquista possível, não um projeto financeiro.

A matemática da coleção completa é ainda mais cruel, pois Milton Jara, físico e matemático do Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), em entrevista à CNN Brasil, apresentou que é estatisticamente mais fácil ganhar na Mega-Sena do que completar o álbum sem uma figurinha repetida. O ritual continua, mas foi silenciosamente reposicionado: de brincadeira de criança para hobby de adulto com cartão de crédito.

O álbum ficou caro. E a Copa, de certa forma, também.

Não no sentido do ingresso ou da viagem, pois sabemos que esse luxo sempre foi de poucos. Mas no sentido afetivo, naquele investimento emocional que o Brasil sempre fez de graça e com alegria. Porque torcer para a seleção brasileira em 2026 exige um exercício mental que as gerações anteriores não precisavam fazer: separar o amor pelo esporte dos personagens que hoje ocupam as manchetes.

A Copa era o momento em que o país suspendia as contradições e se reunia em torno de algo maior. Hoje, antes mesmo de a bola rolar, já estamos lendo sobre tapas em treino, expressões misóginas em entrevista e debates sobre se um atleta com escândalos acumulados merece ou não uma vaga. A seleção segue sendo convocada. A fé também, mas com um gosto diferente.


Bernardinho, o voleibol e a anomalia que o Brasil criou

Em uma entrevista ao podcast Pod Corte Financeiro, Bernardinho, disse algo que parou a conversa: o vôlei é provavelmente o único esporte no planeta onde atletas mulheres ganham mais do que homens.


A explicação que ele oferece é direta. Montar um time feminino de vôlei é mais caro do que montar um masculino porque o produto é mais atraente comercialmente. O jogo feminino tem mais trocas, mais ralis, mais erros que geram oportunidade de defesa espetacular. O masculino tem mais potência, e a potência, paradoxalmente, mata o entretenimento. A bola vai tão forte que o ponto acaba antes do rally começar. O jogo feminino, segundo Bernardinho, gera mais beleza justamente por ser menos avassalador fisicamente.

O raciocínio é revelador em mais de uma camada. Primeiro, porque desafia diretamente a lógica de que força e espetáculo são a mesma coisa, e sabemos que não são. Segundo, porque expõe como a exceção financeira do vôlei feminino não nasceu de um reconhecimento de valor igualitário, mas de uma equação de mercado: as mulheres ganham mais porque o produto que entregam vende mais. A pergunta que fica é quanto dessa valorização resistiria se o vôlei masculino passasse a gerar o mesmo volume de audiência.

E tem uma ironia pesada nesse cenário. Vivemos em um país que ainda paga sistematicamente menos a mulheres em praticamente todos os setores da economia. Segundo dados do IBGE, mulheres brasileiras ganham, em média, cerca de 22% menos do que homens para funções equivalentes. No vôlei, essa lógica se inverte e Bernardinho apresenta isso como anomalia curiosa, não como modelo a ser replicado.

É curioso que o único espaço onde a inversão salarial favorece mulheres seja exatamente onde o mercado, não a política ou a consciência social, determinou que o produto feminino vale mais. É quase uma sátira involuntária do capitalismo: a igualdade financeira aparece quando convém à audiência, não quando é justa.

Impactos da ausência do vôlei na mídia do Brasil

A televisão aberta ainda é, no Brasil, o principal meio de formação de torcedores e foi por ela que gerações inteiras descobriram o vôlei nos anos 1990 e 2000, quando a Globo transmitia os Jogos Olímpicos em horário nobre e o país parava para ver a seleção jogar. Foi essa exposição que criou o mercado, atraiu patrocinadores e financiou a estrutura que produziu campeões mundiais. A lógica é simples: visibilidade gera interesse, interesse gera patrocinadores, patrocinadores geram investimento.


Quando o vôlei some das telas abertas, não some apenas um jogo. Some o momento em que uma criança de dez anos, num domingo à tarde, vê uma jogada impossível e decide que quer aprender aquilo. Some a pressão de audiência que obrigaria marcas a investir em patrocínio.

Esse apagamento é ainda mais grave quando se considera o voleibol paralímpico, modalidade em que o Brasil também figura entre os melhores do mundo e que opera num nível de invisibilidade ainda mais profundo. A seleção brasileira feminina de vôlei sentado, por exemplo, consolidou-se como potência mundial, acumulando medalhas paralímpicas (bronze em Rio 2016 e Tóquio 2021), o título do Mundial 2022 e pódios recentes, incluindo o título da Copa América e prata na Copa do Mundo 2025, mas a maior parte do público brasileiro nunca assistiu a um único set e não tinha ideia dessa informação. Não por falta de interesse, mas por falta de acesso, pois não há transmissão regular, não há cobertura jornalística fora do período paralímpico e não há patrocínio proporcional ao nível técnico apresentado.


Enquanto a Panini imprime 11 milhões de figurinhas por dia e o Brasil inteiro debate se Neymar merece uma vaga na seleção, os ginásios de vôlei disputam orçamento para manter o básico funcionando. O vôlei brasileiro acumula títulos mundiais e medalhas olímpicas que poucos países conseguiram reunir em qualquer modalidade. E ainda assim opera, fora do ano olímpico, numa invisibilidade que seria impensável para um esporte com esse histórico em qualquer país com tradição esportiva consolidada. O Brasil cobra excelência de um esporte que ele mesmo decidiu não mostrar.

Onde assistir?

Atualmente são algumas opções que disponibilizam os jogos de vôlei, em transmissões gratuitas ou pagas: SporTV (TV à Cabo ou Globoplay), GETV (TV à Cabo, Globoplay ou YouTube), Canal Vôlei Brasil (YouTube), NSports, Volleyball TV (aplicativo VBTV ou Youtube), Canal Olímpico do Brasil (YouTube), FIVB - Fédération Internationale de Volleyball (YouTube), CazéTV (YouTube).

Porém, é necessário conferir as programações individualmente, para confirmar horários e quais jogos serão transmitidos.

A hierarquia que não se questiona

O futebol brasileiro não precisa ser diminuído para que o vôlei seja respeitado. Não é isso que está em jogo. É sobre o que o país escolhe ver, financiar, celebrar e proteger, e o que deixa operar na margem mesmo quando o resultado é de primeiro mundo.

A anomalia salarial do vôlei feminino que Bernardinho menciona com orgulho é real e merece celebração. Mas ela existe numa bolha. Fora das quadras de alto rendimento, as atletas brasileiras de vôlei ainda dependem de sorte, de uma empresária na hora certa, de um convite do exterior, para ter acesso ao básico.

O álbum da Copa vai ser completado. O debate sobre Neymar vai continuar. A convocação vai sair. O país vai parar em junho para a Copa (mesmo que fora do horário desejado), enquanto em algum ginásio do Brasil, uma jovem atleta de vôlei vai treinar oito horas num calçado que ela mesma comprou, representando um país que, quando vence, celebra, mas quando é hora de investir, olha para outro lado.

O Brasil sabe ganhar, mas parece que ainda não aprendeu a valorizar quem vence por ele.
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