Virei Lover! O documentário da Kylie Minogue

Uma viagem pelos mais de 30 anos de carreira da maior diva australiana na nova produção da Netflix

No último final de semana, maratonei o documentário 'Kylie', lançado recentemente pela Netflix, e preciso dizer: achei simplesmente sensacional!

Eu já conhecia a Kylie Minogue há bastante tempo, claro. Sou daquela época que acompanhava os clipes dela na MTV, Multishow e assisti aos seus shows quando eram exibidos no canal Boomerang (naquela fase clássica da Warner/Cartoon Network que exibia produções voltadas para o público adolescente). Cheguei a perder as contas de quantas vezes assisti o show 'Aphrodite Les Folies', que sempre retornava a programação. 

Mas, embora tenha acompanhado os lançamentos recentes das eras 'Disco' e 'Tension', eu nunca tinha me aprofundado nas origens dela. E é exatamente aí que esse documentário brilha. No vídeo, direto do meu sofá, assim como ela fez em quase todo o documentário, confira o que achei do documentário e na sequência os principais tópicos da fala em versão texto:


Um acervo imenso e o fim dos boatos

A estrutura de Kylie é dividida em três episódios de cerca de uma hora cada (com o terceiro sendo um pouco mais longo). A primeira coisa que impressiona é a quantidade absurda de acervo que eles têm. A gravadora, a família e a própria Kylie parecem ter vivido com uma câmera na mão desde sempre. Há registros de infância, fotos raras e bastidores que mostram a evolução da sua visão artística de um jeito muito rico. Daria facilmente para a Netflix ter feito uma versão estendida com seis episódios só para explorar melhor os anos 2000 e 2010.

Outro ponto alto é ver como o documentário humaniza a artista e desmistifica as fofocas da indústria. Por anos, os tabloides pregaram uma rivalidade entre Kylie e sua irmã, Dannii Minogue. Assistindo à produção, a gente percebe o quanto caía fácil nessas narrativas falsas. A relação delas e o apoio é muito bonita.


De 'Neighbours' a Michael Hutchence

O documentário não foge da vida pessoal e mostra como os seus relacionamentos amorosos e amizades ditaram os rumos de sua carreira. Kylie relembra seu primeiro namorado, Jason Donovan, parceiro de cena na novela australiana 'Neighbours'. Foi um romance adolescente, marcado por uma ponta de inveja dele pelo sucesso estrondoso dela, o que até o levou a tentar uma carreira musical na época.

Mas a virada de chave artística veio com Michael Hutchence, vocalista do INXS. O envolvimento deles foi intenso. Mais do que uma entrega emocional, o relacionamento fez com que Kylie, ainda muito jovem, se descobrisse. Michael a incentivou a não aceitar o que os empresários e produtores da gravadora impunham. Ele mostrou que ela tinha tamanho e direito de impor suas próprias referências.

Um dos momentos mais tocantes é quando ela fala sobre a trágica morte de Michael em 1997. Kylie confessa que, mesmo anos depois, nunca mais sentiu por ninguém algo parecido com o que viveu com ele. É impossível não se emocionar.

A parceria e amizade mais improvável

Se houve algo que me deixou em absoluto choque, em uma dinâmica que parecia quase uma versão internacional de Supla e Angélica em 'Uma Escola Atrapalhada', foi a parceria dela com Nick Cave (da banda Nick Cave and the Bad Seeds). Dois universos completamente opostos.

O documentário mostra imagens dos bastidores deles. No início, o visual do Nick Cave até assusta, mas logo ele se revela uma das figuras mais fofas e respeitosas com a Kylie. Ele conta que os fãs julgaram muito a parceria com uma estrela pop, mas ele via Kylie como uma "luz que entrava e iluminava um espaço que sempre foi de escuridão". Nick também foi crucial para que ela começasse a compor as próprias letras e colocar sua verdade na música. Eles são amigos até hoje, provando que o carinho ali foi muito além da música (e clipe) 'Where The Wild Roses Grow'.


Braços abertos para o público e o mundo pós-pandemia

Uma escolha de edição no documentário é mostrar, repetidas vezes, Kylie de braços abertos nos palcos. É a metáfora perfeita de sua relação com os fãs: ela abraça o público e é abraçada por ele. O documentário relata como ela ia a boates LGBTQIAPN+ e festas de drag queens para entender o que as pessoas estavam ouvindo e o que queriam dela.

Mas ela também soube fechar os ouvidos para a indústria quando necessário. A produção reconta a fase em que ela lançou seu álbum indie, 'Impossible Princess', que foi massacrado pela crítica na época, mas que hoje é celebrado como um clássico. É o tipo de evolução que a gente vê acontecer no pop direto, como o 'Blackout' da Britney Spears, que completa 20 anos em 2027.

Para os blocos finais, o documentário fala sobre superação. Kylie fala abertamente sobre ter enfrentado dois cânceres. Enquanto o primeiro é detalhado no início, o segundo diagnóstico foi guardado para o final, conectado a uma música 'Story' feita em segredo com um compositor de longa data. E, claro, o estouro global de 'Padam Padam' no pós pandemia, mostrando como ela aprendeu a dominar a internet e dialogar com uma nova geração.

Assistir a tudo isso me deu um misto de felicidade e um leve arrependimento. Tenho amigos que foram na 'Tension Tour' (que tem o show disponível na Netflix) quando a Kylie veio ao Brasil e, vendo o nível desse documentário, só consegui pensar: perdi um grande show! Mas já mudei meu status para Lover oficial e, na próxima oportunidade, estarei lá. Com certeza.

Se você tem três horas livres, corra para a Netflix. 'Kylie' é uma obra realista e vulnerável que deveria servir de modelo para outros artistas documentarem suas trajetórias. É mais uma diva loira para a gente exaltar e acompanhar de perto!

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