Em publicações no TikTok, uma influenciadora literária, apresentou sua versão dos acontecimentos sob o título "a verdade sobre a polêmica envolvendo a garota que não lê livros LGBTQI+".
Segundo ela, tudo começou quando recusou a divulgação de uma autora de romance sáfico que, de acordo com sua narrativa, estava prevista em seu próprio mídia kit, documento no qual já estabelecia que não lê e não trabalha com obras LGBTQIAPN+. A justificativa era contratual. O problema é que justificativas contratuais não existem no vácuo: elas refletem escolhas, e escolhas têm consequências, especialmente quando feitas por quem tem espaço no mercado editorial.
Existe uma diferença entre não gostar de um gênero literário ou de alguma temática abordada em uma obra e declarar publicamente que se recusa a ler livros por causa da identidade dos personagens e das experiências que essas narrativas representam. A primeira é preferência. A segunda é preconceito fantasiado de opinião literária e, pressionado pela reação de leitores nas redes sociais, algumas editoras foram obrigadas a se posicionar publicamente sobre isso.
A Editora Alt, do Grupo Globo, anunciou o encerramento oficial da parceria após avaliar a gravidade do conteúdo compartilhado. A Rocco foi uma das primeiras a se manifestar publicamente, seguida pela Arqueiro, que também comunicou o rompimento da parceria com a influenciadora.
Se a recusa fosse apenas uma preferência pessoal de leitura, sem implicações para ninguém além dela mesma, nenhuma dessas empresas precisaria se posicionar. O fato de que se posicionaram indica que o que estava em jogo não era gosto literário. Mas então, onde exatamente termina a preferência pessoal e começa a responsabilidade de quem atua profissionalmente no universo literário?
Gosto pessoal e responsabilidade pública
Vamos começar pelo que é justo dizer: ninguém é obrigado a ler nada. Preferências literárias são legítimas, particulares e não precisam de justificativa. Há quem não leia terror, quem evite realismo mágico, quem não consiga terminar um livro de mais de 400 páginas, e todos esses cenários representam que a leitura pode ser plural, subjetiva e individual.
Mas existe uma distinção importante entre ter uma preferência pessoal e anunciar publicamente, para uma audiência construída, que determinadas histórias não merecem nem ser abertas por conta da orientação sexual ou identidade de gênero dos seus personagens. A primeira é escolha. A segunda é posicionamento, que quando expresso por quem tem espaço no mercado do livro, tem impacto além da timeline.
A influenciadora não é apenas uma leitora qualquer compartilhando seus gostos num grupo privado. Ela é uma influenciadora com parcerias ativas com editoras, com audiência jovem e com presença em um espaço que conecta leitores a livros.
Nesse contexto, declarar uma recusa a qualquer narrativa LGBTQIAPN+ não é apenas uma preferência expressa, mas sim uma mensagem enviada a todos os leitores que acompanham aquele canal sobre quais histórias merecem existir e quais não.
O que a fala da influenciadora revelou e o que não se sustenta
Entre as declarações que circularam e que teriam motivado a reação das editoras, supostamente estão comentários que iam além da recusa a determinados livros, envolvendo menções ao desconforto com representatividade trans em séries e livros, e argumentos que reproduzem narrativas comuns sobre a suposta ameaça que mulheres trans representam em espaços como banheiros.
Esses argumentos merecem atenção, porque eles não são novos e circulam com frequência disfarçados de preocupação com segurança. A ideia de que mulheres trans representam uma ameaça a mulheres cisgênero em banheiros se sustenta muito mais em preconceito do que em evidência.
Dados de instituições como o IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência contra mulheres ocorre majoritariamente no ambiente doméstico e é, em sua maior parte, cometida por pessoas próximas (parceiros, ex-parceiros e familiares), não por desconhecidos em espaços públicos.
Importante citar que pesquisas acadêmicas e relatórios de direitos humanos vêm mostrando é justamente o contrário: pessoas trans, especialmente mulheres trans, estão entre os grupos mais expostos à violência, ao assédio e ao constrangimento em espaços públicos. Estudos do Williams Institute e levantamentos de organizações como a ANTRA (Articulação Política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais) indicam que o simples acesso a banheiros já é um ponto de risco, marcado por episódios recorrentes de humilhação, negação de entrada e até agressões.
O banheiro feminino é composto por cabines privativas, diferentemente do masculino, que em sua maioria tem mictórios expostos. O único ambiente de uso comum seria a área do espelho e da torneira. A pergunta que fica, como a própria discussão sobre o tema propõe, é: qual é o incômodo real em dividir esse espelho e essa torneira com uma mulher trans? A resposta honesta, quando se retira o argumento de segurança que não se sustenta nos dados, revela que o desconforto não é com risco, mas sim com a presença.
Tratar isso como questão de segurança é uma forma de dar aparência racional a uma rejeição que não tem base factual. E quando essa rejeição aparece na fala de alguém com visibilidade e influência, ela se transforma em algo mais do que opinião pessoal.
A influenciadora literária e o que sua plataforma representa
O BookTok e o universo das influenciadoras literárias transformaram o mercado editorial nos últimos anos de maneiras que as próprias editoras ainda estão processando.
Livros que dormiam em catálogos voltaram às listas de mais vendidos. Autores estreantes chegaram a tiragens impressionantes sem passar por nenhuma mídia tradicional. A recomendação pessoal, filmada em frente a uma estante bem organizada, virou uma das formas mais eficientes de venda de livros do mundo.
Esse poder vem com uma responsabilidade que nem sempre é discutida com clareza. Uma influenciadora literária com audiência significativa não está apenas compartilhando o que lê, está ativamente modelando o que seu público considera digno de atenção.
Quando essa curadoria exclui toda uma categoria de narrativas por razões que têm a ver com preconceito, ela não está apenas exercendo gosto pessoal. Está usando o seu alcance para estreitar o espaço que determinadas histórias poderiam ocupar na cabeça e na estante de quem a segue.
Em contraste direto com as declarações da ex-parceira, a Editora Alt investe fortemente na pluralidade de histórias com protagonistas LGBTQIAPN+. Entre os maiores sucessos recentes dessa linha editorial estão os romances 'Rivalidade Ardente' e 'Os 99 Namorados de Micah Summers'. Não é coincidência que tenha sido exatamente essa editora a romper o vínculo de forma tão direta, porque a contradição entre o posicionamento da influenciadora e o catálogo que ela ajudaria a promover era irreconciliável.
Como se tudo isso já não evidenciasse uma contradição suficiente, vale uma curiosidade que complica ainda mais esse cenário: em uma publicação anterior com o título “Livros tão viciantes que são impossíveis de largar”, a própria influenciadora indicou como leitura recomendada a obra 'Rivalidade Ardente', de Rachel Reid, um romance esportivo que acompanha o envolvimento intenso entre dois jogadores de hóquei.
A pergunta que fica, então, não é apenas sobre coerência, mas sobre motivação: quando esse tipo de obra ajuda a gerar engajamento, visibilidade e crescimento de audiência, será que o critério deixa de ser “o seu gosto pessoal” por não ler livros LGBTQIAPN+ e passa a ser o potencial de alcance que determinadas histórias e seus públicos podem oferecer?
O impacto que vai além do cancelamento
É tentador ler esse episódio apenas como mais um caso de "cancelamento" nas redes sociais, onde a influenciadora diz algo, público reage, empresas se posicionam e perfis são desativados. Mas esse enquadramento perde o que realmente importa aqui.
O que as editoras fizeram ao romper as parcerias não deveria ser apenas para proteger sua imagem, mas sinalizar, para o mercado e para os leitores, que autores LGBTQIAPN+ e suas histórias são parte do catálogo com o mesmo valor que qualquer outra narrativa. Essa sinalização importa em um contexto em que escritores de literatura queer ainda precisam lutar por visibilidade, por espaço em livrarias e por resenhas em veículos com audiência.
A influenciadora pode, supostamente, não ter se dado conta de que o problema não era a sua preferência pessoal em si, mas o que ela comunicava ao torná-la pública naqueles termos. Uma recusa baseada em identidade não é crítica literária, mas sim exclusão fantasiada de opinião, e quando essa exclusão vem de uma pessoa que o mercado reconhece como parceira legítima para divulgar livros, ela adquire um peso que transcende o gosto individual.
Representatividade não é apenas sobre ver rostos parecidos com o seu nas capas. É sobre saber que sua história é considerada digna de ser contada e de ser lida. Quando uma influenciadora com audiência decide que determinadas histórias não entram no seu espaço, ela não está apenas exercendo um gosto: está participando ativamente de um processo de apagamento.
O que o episódio revela sobre a mercado literário
O mercado brasileiro de influência literária ainda está construindo seus parâmetros sobre responsabilidade, diversidade e o que significa, de fato, ter uma plataforma sobre livros e isso está sendo construindo em público, em tempo real, a cada episódio como este, que não foi o primeiro e, sem mudanças estruturais, não será o último.
A diferença é que, nessa ocasião, a resposta do setor foi rápida o suficiente para gerar um precedente. A questão é saber se isso vai se traduzir em prática ou se será esquecido assim que a próxima polêmica ocupar o feed.
A velocidade com que as editoras responderam é, por si só, um dado relevante. Sugere que o setor, ao menos em parte, já entende que sua credibilidade está diretamente associada a quem escolhe como porta-voz e que parceiros que usam audiência para excluir categorias inteiras de literatura com base em identidade, gosto ou religião, não são neutros. São, na linguagem que o mercado compreende bem, ativos de risco comercial e reputacional. Mas reconhecer o risco depois que o estrago está feito é diferente de construir critérios que previnam que esse tipo de parceria seja firmada.
E é exatamente aí que a pergunta mais difícil aparece: o que o mercado editorial faz, no dia a dia e fora dos holofotes, para que autores LGBTQIAPN+ tenham o mesmo acesso à divulgação, às resenhas, ao espaço nas estantes e às parcerias com influenciadores que autores de romances heterossexuais têm?
Romper uma parceria quando a situação viraliza é um gesto necessário, mas insuficiente. Política editorial consistente é outra coisa, que sendo bem estruturada e aplicada, resultará em ganhos como catálogo diversos, contrato com influenciadores que inclua critérios claros sobre representatividade e divulgação de autores LGBTQIAPN+ em todos os meses do ano e não apenas em junho.
Uma influenciadora pode decidir não ler determinados livros. Esse direito ninguém contesta. O que não se sustenta, quando essa pessoa ocupa uma posição pública e remunerada no universo literário, é usar essa posição para comunicar que determinadas histórias não merecem existir, ou que quem as protagoniza não merece ver sua vida refletida nas páginas que circulam naquele espaço.
Isso não é curadoria, mas sim exclusão e as instituições que assinam esses contratos têm responsabilidade sobre o que estão, direta ou indiretamente, endossando. O cancelamento de uma parceria encerra um vínculo. Não apaga o que foi dito, não desfaz o impacto sobre os leitores que receberam aquela mensagem, e não resolve a estrutura que tornou possível que esse tipo de posicionamento fosse tratado como algo aceitável até o momento em que deixou de ser conveniente.
Esse nunca foi apenas um debate sobre gosto literário. É um debate sobre quem tem o direito de existir nas histórias que o mercado decide contar, e sobre quem, até hoje, ainda precisa lutar para ocupar esse espaço.
| Selo usado pelo influenciador Felipe Neto em ação após o prefeito Marcelo Crivella censurar HQ com beijo entre dois homens na Bienal do Rio de Janeiro em 2019. Em setembro de 2025, a Justiça condenou o ex-prefeito pagar R$ 100 mil por ‘ato discriminatório’ na Bienal do Livro. |




