O problema de ‘Estrelas da Casa’ não é o formato. É o pós

E não é um problema único, acontece em todos os realitys musicais

O 'Estrela da Casa' chega à sua terceira temporada em agosto de 2026 com uma missão clara: se reinventar. Com apresentação de Ana Clara, que faz um ótimo trabalho, as duas edições tiveram altos e baixos. Assim, a TV Globo decidiu transformar novamente o formato, apostando agora na competição entre bandas e grupos, justificando a sutil alteração no nome, que passa a adotar o plural 'Estrelas da Casa'

No entanto, olhando para o histórico do programa, fica evidente que o verdadeiro desafio da atração não está no confinamento ou nas dinâmicas semanais, mas sim no que acontece quando a temporada acaba. Para entender esse cenário, basta olharmos para os caminhos de seus vencedores: Lucca, que levou o prêmio com o sertanejo na primeira temporada em 2024, e Thainá Gonçalves, que mistura de R&B, Pop, MPB e Gospel, e venceu a edição de 2025.

Por que o campeão some?

O caso de Thainá Gonçalves acendeu um alerta vermelho. Após vencer o programa em outubro de 2025, a artista participou do 'Encontro' no dia seguinte, mas depois sumiu, retornando à grade da emissora apenas em novembro com aparições pontuais no 'É de Casa' e no 'Altas Horas'. Todo esse tempo foi desperdiçado sem nenhuma novidade sobre material autoral ou inserção em trilhas de novelas.

Para piorar, o descaso se repete no pós-programa: em 19 de maio deste ano, Thainá lançou o single "Ele me viu", pelo selo gospel Purpose Music, sem receber qualquer espaço ou atenção da emissora para divulgar o novo trabalho. 

Com o primeiro vencedor, Lucca, a estratégia foi igualmente morna. Após o programa, ele lançou dois EPs, pela Universal Music. Além disso, uma das grandes promessas de seu prêmio era uma música na trilha sonora da novela das 21h (que deveria ter integrado 'Mania de Você' ou o remake de 'Vale Tudo'), mas a ideia esfriou e ele acabou recebendo apenas a missão de regravar a música de abertura para a segunda temporada do reality. Atualmente, ele retornou a dupla que tinha antes do reality, Lucca e Juann.

Se formos analisar a fundo, esse desaparecimento dos vencedores de realitys musicais não é exclusividade do 'Estrelas da Casa'. Quando o 'The Voice Brasil' era na Globo isso já acontecia e, ironicamente, mesmo após a migração do formato para a parceria entre SBT e Disney+, os vencedores continuam sofrendo com a falta de espaço nas programações.

Para que a temporada de 2026 finalmente tenha resultado, a Globo precisa entender que o "circuito dos campeões" deve funcionar como uma turnê televisiva. Na manhã seguinte à vitória, o vencedor precisa estar no 'Mais Você' ou no 'Encontro' para fidelizar o público matutino. No segundo dia, uma participação no jornal local de sua região é essencial para o engajamento regional. No primeiro fim de semana pós confinamento, uma apresentação no 'Domingão', 'Caldeirão', 'Altas Horas', 'Em Família' e até uma entrevista no 'Fantástico, assim como fazem com os vencedores do Big Brother Brasil'. 

Por fim, uma aparição na novela das sete, que tem a tradição de receber celebridades musicais, mantendo o artista em evidência. E claro, assim como os ex-BBBs, um contrato com o agenciamento da VIU, empresa de influenciadores da Globo, seria essencial.

O fenômeno das bandas e a presença de Anitta

Nesse contexto de reestruturação, a virada de chave para focar em bandas e grupos em 2026 surge como um movimento inteligente. O mercado internacional tem provado que o público jovem é fissurado pelo processo de construção de um conjunto, vide o sucesso global de fenômenos como Now United, Katseye (fruto do projeto 'The Debut: Dream Academy'), Santos Bravos (o primeiro grupo da HYBE na América Latina) e o reality 'Montando a Banda', da Netflix. A formação de um grupo cria dinâmicas de fã-clubes muito mais engajados.

É bom ressaltar que as executivas da HYBE estiveram nos Estúdios Globo na última semana, após a apresentação dos Santos Bravos no Encontro. Não existe nenhuma confirmação, mas com a necessidade de novos patrocinadores para o programa, talvez uma parceria com a empresa coreana seria uma grande aposta para a temporada e administração de carreira após o final da temporada.

Além disso, a introdução de Anitta na temporada, anunciada no Rio2C, traz o peso de mercado que faltava à atração. No cenário atual, um único Story da cantora gera mais impacto, conversão e engajamento digital do que semanas de exibição em horários de baixo rendimento na TV paga ou no streaming ao vivo. 

Compreender a inteligência de mercado de Anitta, que domina como ninguém as nuances do algoritmo e a criação de narrativas visuais, pode ser o grande acerto da edição. A presença dela deve servir para ensinar as novas bandas que o sucesso atual não depende apenas de talento vocal e rigor técnico, mas sim de engajamento digital, respeito à base de fãs e construção de uma marca forte.

Musicalidade versus convivência

A grande dúvida que existe desde a estreia do programa é se vale mais o talento musical ou o jogo de convivência. Às vezes, o processo criativo não prende o telespectador tradicional de reality show, que consome o formato prioritariamente em busca de drama, alianças e atritos. 

Para equilibrar, é necessário compreender que criar uma bancada de jurados fixos e marcantes é essencial. Na segunda temporada, a entrada de Michel Teló como mentor foi um acerto, mas não garantiu melhoria na audiência e não trouxe novidade para o público, que já o acompanhava como o maior campeão da história do The Voice Brasil. 

Os professores e técnicos vocais que acompanham os ensaios cotidianos, embora fantásticos, não dão conta do show de entretenimento sozinhos. Falta um painel fixo de especialistas no palco principal para centralizar as controvérsias, gerar discussões e pautar as redes sociais. Afinal, quem não amava odiar o Simon Cowell no 'American Idol' ou 'The X Factor'?

Somado a isso, a estratégia digital precisa sair do Multishow e migrar totalmente para o YouTube, Instagram e TikTok, trazendo formatos que explorem a rotina de criação das bandas. E que sirvam também como instrumento de análises e reacts nas redes, que hoje em dia são essenciais para o sucesso de um reality show. E essa presença digital é o maior exemplo que eles podem tirar da formação dos grupos Now United, Katseye ou Santos Bravos.

Músicas originais e a nova era da produção

Se houve um ponto inquestionável nas temporadas anteriores, foram as dinâmicas em grupo. Ver os participantes criando jingles e faixas inéditas do zero em questão de 40 ou 50 minutos provou o valor do formato, tanto que a própria Globo soube aproveitar essas criações nas campanhas do 'Vem Aí' e 'Criança Esperança'. 

O grande problema surgia no desafio individual. As poucas músicas originais lançadas pelos participantes ao longo do confinamento muitas vezes careciam de identidade vocal e visual para competir com o topo das playlists das plataformas de áudio e com o que já dominava as rádios. Considerando o tamanho da Globo e sua grande quantidade de estúdios, me surpreende que nenhuma prova semanal garanta um clipe oficial para o participante.

Em uma era ditada pela ascensão meteórica de estrelas da internet e pela facilidade de produção e distribuição digital independente, o programa precisa entregar músicas que sobrevivam por conta própria no streaming, além de uma possível inserção constante na televisão. Com essa nova visão criativa e uma busca por patrocinadores (que já ganharam bons descontos para que apareçam na nova edição), o 'Estrelas da Casa' tem a chance de mirar no que realmente importa: deixar de ser apenas um reality musical, em que os participantes perdem relevância no dia seguinte a eliminação, para se consolidar como um espaço de criação duradouro para novas estrelas da música brasileira.

Afinal, o sucesso de um reality musical não deveria ser medido pelos índices de audiência da noite da grande final, mas sim pelo desempenho das paradas de sucesso nos meses seguintes. A Globo já provou que tem a infraestrutura e o alcance. O que falta é a sensibilidade de tratar o artista campeão não como um produto televisivo esquecível, mas como um investimento de carreira a longo prazo. Se a emissora finalmente compreender que o verdadeiro show começa quando a temporada acaba, o 'Estrelas da Casa' deixará de ser apenas um produto anual na grade e começará a gerar expectativa do público para descobrir novos rostos da música nacional.

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