Com uma ideia de distopia, "Só Por Uma Noite" surpreende com final decepcionante

Comédia romântica distópica traz um mundo onde solteiros só transam uma vez por ano, mas esbarra no conservadorismo

"Só Por Uma Noite" (One Night Only, 2026) é, essencialmente, uma comédia romântica distópica, uma espécie de “Uma Noite de Crime” (The Purge), mas onde a infração liberada não é a violência, e sim o sexo.

A trama se passa em um futuro próximo (para não dizer nos dias de hoje). Nos Estados Unidos, vigora há três anos um decreto em que pessoas solteiras só têm permissão para fazer sexo durante uma janela de 12 horas (entre 19h e 07h) exclusivamente no dia 07 de agosto. A obsessão pela data e pelo número 7 levanta até um questionamento: seria algo cabalístico? Fato é que esse curto espaço de tempo é aguardado e comemorado pela população como se fosse a virada do Ano Novo.

Para garantir o cumprimento da lei, o governo instituiu um sistema de controle social rígido. Toda a população é chipada, e as cores dos chips variam conforme o estado civil: verde são os casados, com relações sexuais liberadas, e vermelho são os solteiros, onde o celibato obrigatório fora da data permitida.

Há também um subtexto social interessante no filme: a política parece ter sido idealizada sob uma ótica heteronormativa. No contexto LGBT+, fica subentendido que, embora sofram as mesmas restrições, as pessoas encontram suas maneiras de burlar o sistema, ou seja, uma política criada por héteros, para héteros. Porém, nem isso garante o receio de não ser preso, caso o sistema detecte alguma "atitude suspeita".


Acompanhamos Allie (Monica Barbaro) e Owen (Callum Turner, conhecido também como o marido de Dua Lipa), dois desconhecidos que acabam se esbarrando pelas ruas de Nova York justamente na única noite do ano em que os solteiros têm permissão para transar.

A química entre o casal é inegável. É incrível como os dois conseguem hipnotizar o público, com destaque absoluto para Allie. Barbaro entrega uma atuação cheia de nuances divertidas e dramáticas, além de surpreender ao mostrar que canta muito bem. Vale ouvir sua versão de 'Only You', da Yazoo.

O longa é dirigido por Will Gluck, o que gera um contraponto curioso e irônico com seu maior sucesso, 'A Mentira' (Easy A, 2010). Enquanto o filme de 16 anos atrás focava em uma jovem fingindo ter uma vida sexual ativa para ser popular, manifestando a liberdade sexual feminina, ‘Só Por Uma Noite’ soa muito mais careta e menos revolucionário.

A narrativa até tenta explorar o fascismo disfarçado de saúde pública. O governo usa como argumento principal que, após o decreto, as taxas de gravidez na adolescência e de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) caíram drasticamente. Em uma cena de entrevista na TV, vemos um senador sendo questionado sobre a validade moral do decreto, evidenciando que até países tradicionalmente conservadores olham com estranhamento para a decisão estadunidense.

Ainda assim, o filme dá a entender que, embora ninguém goste da situação, a revolta da população é passiva. A única "manifestação" visível se resume a cartazes nas janelas de casas e lojas pedindo a revogação da lei.


Um dos pontos mais cínicos do filme é como as marcas reais entram na narrativa. A publicidade é inserida nesse universo distópico, adaptando a linguagem comercial àquela realidade. Marcas como Duolingo, RedBull, Dunkin' e Omicron Travels & Tours estão presentes nos metrôs e nas ruas.

No entanto, o grande destaque vai para empresas como KY e Durex. A Durex atua quase como a grande patrocinadora não-oficial da história, incentivando o "dia do sexo", mas sempre com proteção, o que acaba sendo um ponto muito positivo e minimamente responsável dentro da narrativa.

A trama me tirou algumas risadas e me distraiu? Com certeza. Mas apesar do entretenimento, o final é decepcionante. Mesmo com o tempo se esgotando, os protagonistas escolhem esperar mais um ano inteiro para finalmente transar.

Embora a mensagem de que "nem toda relação precisa ser validada apenas pelo sexo" seja compreensível e até bonita, dentro de um contexto distópico, é frustrante. Incomoda ver como uma regra governamental tão absurda e controladora gera tão pouca revolta nos personagens e na sociedade do filme, resultando em um conformismo que enfraquece a ideia de uma revolução em uma narrativa distópica.

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A