"Eu tô ótima" e as ironias de um pós-término | Venhamos e Convenhamos

Monica Heisey apresenta uma comédia caótica sobre um coração partido

Sabe aquele momento em que a sua vida está um caos completo, mas alguém pergunta como você está e a resposta automática é: “Tudo bem, e você?”. É exatamente essa a história de "Eu tô ótima", livro de Monica Heisey lançado no Brasil pela Editora Rocco, com tradução de Maira Parula.

Mas vamos falar a verdade, esse título é pura ironia. É uma ironia sobre os mecanismos de defesa que usamos para não admitir que tudo está desmoronando. 

Em questões visuais, a capa brasileira optou por esconder a ilustração do choro e da máscara de cílios borrada que são um padrão nas versões internacionais. Essa escolha pode até passar uma ideia de positividade ao olhar para a capa, o que explica por que muita gente se frustra e reclama nas redes sociais quando descobre que a história, na verdade, é visão caótica de um término.

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Na história, conhecemos Maggie. Aos 29 anos, ela está falida, empacada na tese de doutorado e lidando com o fim de um casamento que durou exatos 608 dias. Determinada a abraçar a sua nova vida como uma Divorciada Incrivelmente Jovem® (sim, ela faz questão da marca registrada), ela tenta de tudo: novos hobbies, encontros em aplicativos e hambúrguer às quatro da manhã.

Mas a verdade por trás desse "recomeço" é bem menos glamourosa. O livro apresenta aquela transição dolorosa em que o amor simplesmente desgasta, como Maggie lembra ao pensar no ex-marido, Jon:

Juramos que nenhum dos dois tinha “imaginado uma coisa dessas”. Afinal, não tínhamos os grandes problemas que levam a esse tipo de situação. Havia alguns problemas, é claro: além de comer na cama, eu falava alto e não respeitava o sistema dele de organização da geladeira; ele era genioso e queria que a gente começasse a correr. Mas não estávamos infelizes, só insatisfeitos... até que de repente ficamos muito, muito infelizes, e não conseguíamos mais rir, não conseguíamos transar, não conseguíamos pedir comida tailandesa sem olhar pro outro como quem diz quem é você?, encarando o estranho que escolhemos aos dezenove anos e dezenove anos e meio, respectivamente, sem se odiar de fato, mas imaginando que, se o outro morresse de repente - de causas naturais ou em algum horrendo acidente, não que isso fosse bom, claro que não, seria uma tragédia... mas se -, talvez a vida ficasse mais fácil. (Posição 76 no e-book)

A inconveniência até com os amigos

Para tentar passar pelo primeiro ano de solteira, Maggie conta com um grupo pequeno de amigos. Tem a Lauren, Lauren Emocionada e Clive. Falando em Clive, ele entrega um dos momentos que mais me diverti na leitura:

Não deixe Maggie começar a falar sobre o IMC, escreveu Lauren. Vamos ficar nessa a noite toda. Clive nos contou que há pouco tempo tinha decidido que na verdade isso significava “Índice de Macho Charmoso”, o que fazia sentido, porque o dele era alto demais. (Posição 149 no e-book)

Os amigos tentam ajudar, mandando mensagens para ela tomar banho e a levando para beber vinho rosé no parque. Só que a Maggie está tão perdida que acaba se tornando aquela amiga chata e inconveniente. Ela quer atenção, mas rejeita o afeto. Como ela mesma define:

Qualquer um que tentasse me reconfortar lidava com uma tarefa impossível: atenção e cuidados demais pareciam piedade, se insuficientes eram prova de que eu não merecia e ninguém queria ficar perto de mim. (Posição 340 no e-book)

Quando sugerem que ela procure terapia, ela surta. O ápice da sua negação é maravilhoso e perfeitamente ilustrado em uma de suas crises:

- EU TÔ ÓTIMA - gritei, para deixá-la à vontade. - NÃO se preocupe EM NADA comigo, porque, como disse, eu sinceramente estou MUITO bem. (Posição 3050 no e-book)

Pode ser só ruim

Monica Heisey entrega um livro sensível ao mostrar as incertezas do amor sem filtros românticos. Maggie precisa aprender a viver a vida com o coração partido ao mesmo tempo.

No final, a grande lição que fica, e que serve de consolo para qualquer um que já passou por uma perda, é o choque de realidade que ela recebe:

Você e Jon não terminaram porque o conceito do casamento está falido. Vocês terminaram porque não conseguiram fazer o casamento dar certo, uma coisa normal que acontece com milhões de pessoas. Não precisa ser uma grande conspiração. Não precisa ser especial. Pode ser só ruim. (Posição 3360 no e-book)

Se você procura uma comédia dramática realista, ‘Eu tô ótima’ vai te fazer rir, ficar revoltado com as escolhas da protagonista e se dar o direito de não estar bem o tempo todo. Não espere uma história que apresenta soluções na busca da "felicidade". Afinal, como a própria Maggie conclui:

Eu sabia, teoricamente, que errar era humano, mas meio que parecia que devia haver um limite para quantos erros um ser humano pode cometer. (Posição 3687 no e-book)

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