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Jogos Vorazes (The Hunger Games, Estados Unidos, 2012) é baseado no livro homônimo (e primeiro de uma trilogia) de Suzanne Collins e foi e levado às telas sob a direção de Gary Ross, de A Vida em Preto e Branco e Alma de Herói. Na história, Panem é o Estado ditatorial em que os Estados Unidos se transformaram após anos de guerras civis e abuso das reservas naturais. É formado por doze Distritos, de onde todo ano são escolhidos 24 "tributos" para lutarem entre si até restar apenas um sobrevivente — num evento transmitido a todo país, os Jogos Vorazes do título. Os tributos são crianças ou adolescentes, e os "jogos" são uma forma de punição mascarada e exibição de autoridade: segundo o governo, deixar que um viva ao final é sua demonstração de misericórdia. Katniss (interpretada pela excelente Jennifer Lawrence), jovem determinada e resoluta, vive no miserável 12º Distrito e acaba sendo uma das competidoras, ao se oferecer no lugar da irmã menor que fora sorteada. Junto com ela, Peeta (Josh Hutcherson), de grande força mas inseguro, também é escolhido para representar o distrito. No que o público — em especial o infanto-juvenil — acaba se identificando com esses personagens é que reside a força de Jogos Vorazes: não há aqui muito espaço para leveza e idealização; o leitor e o espectador são confrontados e levados a refletir sobre questões mais sérias que, em maior ou menor grau, estão presentes na sociedade contemporânea. A alegoria de Collins contempla desde o poder manipulativo da mídia ao fascínio mórbido pelos reality shows, do cerceamento das liberdades individuais às competições interpessoais do mundo moderno, da inércia do comodismo ao ridículo da alienação. E, num olhar menos cínico e sem metáforas, o texto pode representar apenas um reflexo das atrocidades a que pessoas são submetidas diariamente em todos os lugares. Ross, certo em querer levar a discussão a um público mais amplo, ameniza a violência nas imagens, sem com isso suavizar as ideias. Ao alcançar tamanha força e concisão, o filme pode até ter seus deslizes, mas eles se tornam irrelevantes.

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Em O Artista (The Artist, França/Bélgica, 2011), o diretor francês Michel Hazanavicius retorna, na técnica e na história, aos primeiros anos da Sétima Arte, com um filme mudo e em preto e branco sobre um astro do Cinema que entra em declínio por não se adequar à transição para o som. Impecável nos atributos técnicos, já nos créditos iniciais a produção é capaz de transportar o espectador numa viagem nostálgica e saudosista. O início é mais que promissor: em meio a uma metalinguagem encantadora, os personagens são apresentados ao público ao mesmo tempo em que vão se conhecendo, e Hazanavicius extrai momentos brilhantes de pequenas situações e das performances carismáticas de seus protagonistas. Mas, ao se estender por cem minutos, O Artista vai aos poucos se desvanecendo, e ao final parece não muito mais que um experimento de estilo sem muito significado ou relevância. Num Oscar que celebrou o passado e o fazer cinematográfico, saiu vencedor de cinco estatuetas: filme, direção, trilha original, figurino e ator, para o sensacional Jean Dujardin.



Guerra É Guerra! (This Means War, Estados Unidos, 2012) é um excelente exemplo de obra esquemática: não há nada em sua trama de que se possa esperar algo imprevisto; que seja uma comédia romântica, então, só a torna mais ordinária. As bases: dois amigos se descobrem apaixonados pela mesma mulher, e então se lançam numa disputa para ver quem consegue conquistar seu amor. No caso aqui, os dois homens são agentes da CIA e têm uma amizade de longa data, mas aparentemente não se afetam em ver a relação ruir ao passo em que a rivalidade cresce. O triângulo é interpretado por Tom Hardy, Chris Pine e Reese Witherspoon, que sustentam o filme com sua simpatia e algumas cenas divertidas. Mas tudo vai se resolvendo com uma desculpa, um convite, um olhar, e acaba que algumas risadas não sobrevivem a uma fórmula tão barata.

Reflexão da violência Reflexão da violência Reviewed by Mateus Denardin on 08:50:00 Rating: 5