A nostalgia seletiva das bancas de revistas

Entre o glamour de 'O Diabo Veste Prada 2' e a febre do Álbum da Copa, por que insistimos em falar das bancas no passado?

Com a estreia de ‘O Diabo Veste Prada 2’, um fenômeno curioso tomou conta das redes sociais e da mídia: uma onda de nostalgia coletiva. E não é só pelo retorno dos personagens que conhecemos em 2006. O comentário mais comum é a clássica frase: "que saudade de ir à banca" ou "que falta faz folhear uma edição física". Mas aqui cabe uma provocação: por que falamos das revistas no passado, se elas ainda estão lá?

E falando no filme, nos Estados Unidos, um dos materiais promocionais de divulgação nas pré-estreias foi justamente uma versão impressa da revista Runway. O produto tornou-se um objeto de desejo tão grande que exemplares passaram a ser vendidos por preços exorbitantes no eBay. Apesar da Disney e 20th Century Studios liberarem um site com o conteúdo da revista, ela foi escaneada por um fã e compartilhada no X. Isso prova que o papel, quando bem utilizado, ainda gera um valor que o digital não consegue replicar.

A verdade é que as bancas não desapareceram; elas apenas se tornaram invisíveis para quem parou de olhar. Sim, estão em menor quantidade e o cenário editorial mudou, mas elas existem. O ponto é: você sabe onde fica a banca mais próxima da sua casa hoje? Muitas vezes, o saudosismo é apenas uma desculpa para não apoiar o que ainda existe.

O mercado, é claro, precisou se reinventar. Muitas publicações mudaram radicalmente o formato de venda e a periodicidade: o que era mensal, tornou-se semestral ou sazonal. Hoje, títulos renomados de moda, cultura e política focam na venda direta por sites ou modelos de assinatura. Para muitas editoras, a logística deixou de ser viável, priorizando o contato direto com o leitor fiel.

Além disso, a matemática das bancas é complexa. Assim como as livrarias, elas operam com margens apertadas. Geralmente, o lucro da banca fica entre 15% e 25% do valor de capa, variando conforme o produto que está sendo vendido (no caso de figurinhas, pode chegar a 30%). O desafio aumenta na distribuição: em cidades sem entregas oficiais das grandes distribuidoras nacionais, o jornaleiro precisa repartir seu lucro com distribuidores regionais apenas para garantir o produto na prateleira. É um esforço enorme para manter vivo um hábito que muitos juram que já morreu.

Anne Hathaway e Meryl Streep na divulgação de ‘O Diabo Veste Prada 2’, para a Vogue China

Momentos como este, em que um filme desperta memórias e o alvoroço pelo Álbum da Copa do Mundo 2026 só cresce, provam que o espaço para revistas, gibis, jornais e almanaques de atividades continua vivíssimo. Talvez o que falte seja a vontade de parar, pesquisar, olhar as opções e entender o que cabe no orçamento.

Portanto, antes de postar que "sente saudades", faça o exercício de visitar uma banca na sua cidade. Elas podem não ter o volume de duas décadas atrás, mas continuam sendo espaços essenciais de cultura, notícias e entretenimento. E para instigar essa conversa: você lembra qual foi a última revista, gibi ou jornal que comprou em uma banca?

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