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Inércia: do repouso ao movimento

Foto: Diego Vara / Agência RBS


De modo muito simplificado, pode-se definir o princípio físico da inércia como a tendência que os corpos apresentam para resistirem à mudança do movimento em que se encontram. Isso quando há a ausência de uma força externa. Felizmente, nos últimos dias temos visto que, apesar de a inércia em permanecer no acomodamento era grande, houve força capaz de rompê-la: a força da indignação. Não tocarei no ponto de que não é sobre os vinte centavos, porque isso já está batido e todos já sabem. É notável e linda a força que tomou as ruas do país, em que a diversidade se tornou um só. Nas ruas havia de tudo, desde o jovem até o vovô, do branco ao afrodescendente. Isso porque quando a causa é válida, quaisquer diferenças são postas de lado e se torna um, apenas um.

Em geral, viram-se movimentos pacíficos cobrando saúde, educação e transporte públicos de qualidade, aproveitando o momento oportuno em que o Brasil está – a Copa das Confederações – com os olhos da imprensa mundial voltados para cá e os manifestantes foram sábios em aproveitar isso. Vasculhando a internet para ter uma maior noção das proporções que esse despertar causou, estima-se que nas dez maiores capitais do país se aglomerou em torno de 500 mil pessoas, que clamavam em paz direitos básicos que nos são negados, simplesmente, por tolerarmos roubos, desvios e corrupções. Desculpe. Tolerávamos. Agora, isso não nos causa apenas indignação. Evoluiu para asco. Pena que custou 20 anos desde nosso último sono para acordarmos, mas agora, pelo que parece, será difícil voltar a dormir. É verdade o que dizem: um pouco de água fria na cara tem seu efeito.
Foto: Laycer Tomaz / Câmara dos Deputados
Apesar de me encher de orgulho e marejar meus olhos tal revolução, alguns aspectos negativos me apertaram o peito. Por mais que a maioria queria apenas protestar pacificamente, sempre há uma minoria dissidente e oportunista. Estes provocaram vandalismo em patrimônio público e privado, ignorando o fato de que o que é publico e foi destruído será licitado para ser reconstruído, havendo assim, como de praxe, superfaturamento, roubo e tudo aquilo que já estamos acostumados a ver – desculpe novamente, “estávamos” – e assim, reiniciar-se-á todo o ciclo corruptivo. Além disso, viram-se mãos firmes e braços rijos segurando bandeiras de partidos políticos, querendo, em vão, ligar a vontade de mudar o país a algum partido específico. Mas essas ações são muito pequenas comparadas a grande maioria dos protestantes, que era deveras apaziguadora e sensata. Em um vídeo feito pelo pessoal do Jovem Nerd, mostraram-se momentos incríveis na manifestação de Curitiba. Quando bandeiras de partidos foram erguidas, já se seguiu “Abaixa a bandeira!”. E prontamente a multidão foi ouvida e as bandeiras recolheram-se, como um cão põe o rabo entre as pernas quando sabe que fez algo errado. Mas infelizmente, quando a grande maioria gritou “Sem depredação!” o efeito não foi muito eficaz nos vândalos, infelizmente. Nos manifestos em geral, segundo Paulo Sant’ana do jornal Zero Hora, os vândalos representaram insignificantes 1%. Mas estão lá.

A revolta também causou raiva ao ver vídeos divulgados mostrando o claro abuso e falta de noção da polícia. Não se deve generalizar a atitude dos policiais, mas o que foi visto chocou. No protesto de Belo Horizonte, um manifestante caiu de uma rampa alta e quando avisaram aos policias, estes com a maior calma e crueldade bradaram: “Deixa, rezando é que ele não tava”. Agora, quando se reza tem o direito ao socorro? Pobre dos ateus. E ainda está lá na Constituição que o estado é laico.

Nos manifestos inicias, principalmente nos de quinta e sexta-feira da semana passada em São Paulo, a polícia foi truculenta e irracional. A jornalista da Folha, Giuliana Vallone, tomou um tiro de bala de borracha em um dos olhos e corre o risco de perder visão. Sim, da Folha. O mesmo periódico que num dia anuncia que os protestantes são vândalos e que no outro, justamente por sete de seus jornalistas terem sido feridos, anuncia na capa que a polícia agia com truculência. É quando nossa visão é dificultada que aumentamos nossos horizontes.


Com tanto barulho até demorou para que autoridades se manifestassem, e quando o fizeram, foram vagos e só anunciaram que estão escutando. Bom, melhor que nada. A Presidente disse que “As manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem”, e mais recentemente disse, “Meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança”. Agora, resta saber se essas declarações não são apenas politicamente corretas para justificar a democracia, mas que sim são verdadeiras e que mudanças acontecerão de verdade, porque agora, se os manifestantes não forem ouvidos, eles não terão relutância alguma em voltar às ruas e bramir suas faixas e cartazes até que o país entre nos eixos. Lentamente, os protestos se mostraram eficazes. Em Porto Alegre, o prefeito José Fortunati anunciou que a tarifa de ônibus não aumentará, e em algumas outras cidades está se discutindo esse mesmo tópico.

Portanto, agora é um momento em que temos de nos orgulhar de nosso país e se possível, juntarmo-nos aos manifestantes. Vamos para a rua. Claro que, se não puder, revolucione do seu jeito. Vamos mostrar que não há força que nos fará sair do movimento e voltar ao repouso. Vamos ser inertes. Fisicamente inertes. Uma vez em movimento, será muito difícil voltarmos ao repouso.

Inércia: do repouso ao movimento Inércia: do repouso ao movimento Reviewed by Álvaro E. Jost on 15:24:00 Rating: 5